segunda-feira, 14 de maio de 2018

eu

"Feitas as contas, sou neto do Estado Novo e, já bem dentro da idade adulta, formou-se em mim uma vertigem por conhecer esse avô que morreu antes de eu nascer, mas cujas fotografias ainda param lá por casa, como fantasmas proibidos de um passado difícil de desenterrar"

by Ricardo Vaz Trindade a propósito de 'Eu Salazar', projecto apresentado pelo Teatrão  em Coimbra.

quinta-feira, 8 de março de 2018

domingo, 4 de março de 2018

Questões que apoquentam


Onde fica a Vila de Ourique?

Tenho-me arrastado languidamente pela rotina quotidiana sem muito tempo para passar por cá. Mas, hoje é domingo, chove e esta noite passam os Óscares na TV portanto, eis-me aqui.
Nas últimas semanas muitos têm chegado aqui pelo Ouriquense o Blogue / diário do Eremita.
Um bloque bom, muito bom, cujo autor me colocou no seu quadro de honra e me provocou a vergonha de perceber que me leu como se não bastassem o Arpose, o Xilre, o Impontual, aquele Cigano de Malta e vocês todos que passam por aqui de vez em quando. Saber que me dedicam tempo faz-me sentir muito pequenina. Obrigada!
Para além de me fazer sentir honrada o Eremita deixou-me com esta questão comichosa onde fica Ourique? 
Conheço muitos recantos de Portugal mas a minha vida divide-se entre Coimbra e Amarante, o mais longe que estive a sul foi Vila Viçosa, nunca estive no reino dos Algarves e nunca fui às ilhas. Felizmente, agora, há esta coisa moderna da internet, já devem ter ouvido falar certamente, e numa simples pesquisa percebi que Ourique deve ser um sítio bom para estar, sossegado como eu gosto, sendo que ando numa fase de estabelecer planos para o médio prazo e com uma vontade enorme de sair daqui acho que era capaz de viver em Ourique, ser empreendedora em Ourique, uma jovem agricultora a explorar uma produção de porco-preto em Ourique...
É,  Eremita, talvez me mude para Ourique. Mas se for vou de carro, de bicicleta não que aquela coisa do isso nunca se desaprende é uma grande mentira e eu se me puser em cima de uma bicicleta o único lugar a que chego é ao chão. Ou, talvez não, talvez não me mude para Ourique mas fiquei com vontade de lá ir beber um vinho alentejano com uns enchidos a uma tasca qualquer uma infusão de ervas num copo que é um frasco de compota reciclado...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Dou por mim a interessar-me por isto

Eu, que aproveito os jogos da selecção para ir às compras sossegada e nunca sei quem vai na frente do campeonato, ouço dizer que um ministro 'cravou' bilhetes para um jogo de futebol usando o seu gabinete e estatuto, que o presidente de um clube de futebol vendeu uma posição na direcção do clube em troca de favores pessoais, que outro presidente dorme com os três olhos fechados e dou por mim a interessar-me por isto. Este é, de facto, um desporto muito bonito.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Verão


Quando vínhamos de brincar no rio, eu os meus irmãos e por vezes o meu primo, comíamos gemadas.
Abríamos os ovos e separávamos as claras das gemas bem amarelas, só as prodigiosas galinhas da minha mãe que nos brindavam com mais de duas dúzias de ovos por dia podiam produzir ovos assim amarelinhos. Guardávamos as claras para fazer Molotof  que só era difícil quando o caramelo se queimava e colocávamos as gemas em tigelas, duas gemas para cada um. Depois, deixávamos que os cristais de açúcar fizessem o resto e assistíamos ao Gladiadores Americanos que passava na SIC. Era Verão.


cáp·su·la (latim capsula, -ae, pequena caixa) substantivo feminino . Invólucro


Os filhos da geração que cresceu sem mudar de canal porque se tinha deixado convencer que isso faria com que o pedaço de cartão redondo que minuciosamente colara no canto do ecrã se desactivasse  e gastou tardes e tardes de Verão a ver os Gladiadores Americanos andam a comer cápsulas de detergente. A culpa é das redes sociais. Sim, das redes socia...hum...

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

E se Cristo fosse Nanny?



Lembrei-me, a propósito desta Crónica do Marginal Ameno (Nuno Costa Santos), de 'O Auto' texto que o Teixeira de Pascoaes dedicou a João Corrêa d'Oliveira 'colega nas letras e no volante' e da onda de indignação que o 'Jesus Cristo em Lisboa', da autoria do Pascoes e do Raul Brandão despoletou.
Na sua crónica o Nuno Costa Santos invoca David Brooks e o seu texto 'How would Jesus Drive?'. numa carta ao Jornal A Voz, em defesa do 'Jesus Cristo em Lisboa' Pascoaes invocava, desde o número 32 nas Janelas Verdes em Lisboa, um padre norte-americano autor de um texto com o título 'Se Cristo viesse a Chicago' a quem 'ninguém alcunhou de blasfemo'.
Não há semelhanças entre o texto do Pascoaes e o do Nuno Costa Santos mas um teve o dom de evocar o outro de uma gaveta de memórias e o outro mereceu-me nova leitura e atenção.
Numa outra carta, esta ao Diário de Lisboa e Outros Jornais os autores defendem-se com 'O que é preciso é tornar os homens bondosos, fraternos e justos, isto é, cristãos. Quando o mundo se cristianizar verdadeiramente, estará concluída a grande e única revolução salvadora.' Acho que, para tal, aplicar mais bondade na condução e na saída das rotundas pode ser um bom principio.

'Se Jesus Cristo voltasse ao mundo não entraria em Jerusalém, a cavalo num jumento,mas num vagon de 3ª classe que o deixaria na gare de Siloé, a dois passos daquela fonte que ainda murmura, a medo, num versículo da Bíblia. Mas o pior não era o vagão de terceira classe; o pior era aquele abraço de um amigo - «Olá, Meu caro Messias! Anda daí beber uma cerveja à Brasileira!» Porque a Brasileira, com certeza, já chegou a Jerusalém e dependurou, na cruz do Calvário, o seu fantástico reclame, em letras enormes vermelhas!' in O Auto. Ilustração nº 24, 20-12-1926, pp 25-26 para conculta online aqui

ps O título deste post só lá está para atrair os indignados com ou os defensores do novo programa da SIC Supernannny, quem sabe até a própria da Nanny, ler sobre bondade só lhes fará bem.





sábado, 13 de janeiro de 2018

Nada no Coração


Não esperava um diagnóstico tão frio, depois de ter carregado uma traquitana ao peito vinte e quatro horas e estar cheia de nódoas negras  provocadas pela pressão que o senhor doutor aplicou no aparelhometro de nos ver por dentro.

- Pode ir. O seu coração não tem nada. -disse.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Silêncio

"Creio que nunca se inventou coisa melhor para suspender uma acção (no sentido de suspense). Se querem um conselho, sempre que um instante absurdo vos pedir palavras, repitam Bulgákov: 'Neste momento, como é inteiramente compreensível, fez-se silêncio debaixo das...arcadas, tectos falsos, abóbada azul do céu...' o que quiserem."

Rui Cardoso Martins in Salada Russa, revista Granta Portugal 10

Sem este sábio conselho do Rui Cardoso Martins e do excelente texto (ida ao cinema) do Mario de Carvalho o número 10 da Granta Portugal seria à semelhança do número 9...hum...neste momento, como é inteiramente compreensível, faz-se silêncio debaixo da manta.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Questões que me apoquentam

As pessoas que me perguntam 'Então, como foi a tua passagem de ano?' referem-se àqueles segundos que separaram o ano 2017 do ano 2018 e me apanharam embrulhada numa manta, sem voz, porque o pico da gripe vem aí mas na semana passada é que foi ou referem-se aos 365 dias de 2017 em que se estiveram completamente lixando para mim? Hum?