sábado, 25 de março de 2017

Modorra


Tenho dormido mal.
Sempre que acordo, procuro o telemóvel para ver as horas. Não quero perdê-las. Sempre que vejo as horas, procuro nas redes sociais pelos títulos dos jornais não vá o mundo ter morrido enquanto dormia. Sinto-o enfermo, ultimamente. 
Tenho tanto que fazer e o mundo tanto para resolver e mesmo assim vêm uns tipos e roubam-me uma hora. Está mal!

Os próximos dias serão difíceis, a modorra será maior do que a habitual.

Durmam bem!


(Not So) Suddenly




The Earth Dies Screaming, 1964

terça-feira, 21 de março de 2017

Luz


Luz, sombra.
Definição de espaços. Preenchimento de vazios.

The Turin Horse by Béla Tarr 



domingo, 19 de março de 2017

Percepção temporal manchada


Entalei um dedo no guarda-fatos do meu quarto, antes do Natal. Fiquei com uma mancha preta na unha que fez sobressaltar a minha mãe na noite da consoada. Pensei que ia desaparecer depressa, mas não.
Habituei-me a ela. Raras são as vezes em que a vejo na azafama dos dias. Hoje dediquei-lhe atenção, avançou bastante acompanhando o crescimento da unha mas, deve demorar mais um mês a desaparecer. De repente, apesar dos dias corridos e das horas curtas, apercebi-me de que o tempo avança mais devagar do que a percepção que tenho dele.



note to self: observa-te!




domingo, 12 de março de 2017

Foi sábado

Gargalhou como se ouvisse musica, como se fosse a única, a última. Subiu a construção como se fosse sólida, tropeçou no céu como se fosse bêbado e flutuou no ar como se fosse pássaro.
Agonizou no passeio publico como se fosse a próxima. Morreu em contramão atrapalhando o tráfego, como se fosse máquina.



Cristina Branco canta Chico Buarque

quarta-feira, 8 de março de 2017


- Avó! Eu não sabia que havia meninas pobres.
- Não!?
- Eu sabia que havia pobres mas, não sabia que os pobres eram meninas. - Concluiu o pequeno que seguia de mão dada à avó enlutada. Aparentava ter pouco mais de quatro anos.
Demasiado precoce para tal tomada de consciência, que coincidência, o dia... pensei quando regressava a casa ao fim de mais um dia em que me arrastei de passagem.
Trazia um cravo na mão que agradeci cordialmente, fui incapaz de erguer a voz ou fazer campanha pelas mulheres que fizeram o mesmo mas a um patrão que antes de as contratar questionou quais eram os seus planos para o futuro - E filhos? Tem? Para quando? Estou cansada.

Quero dormir, dormir... como uma menina que se esconde das sombras e do futuro em baixo da máquina de costura da mãe, que enrola o corpo sobre si e se aconchega esperando que as sombras não lhe cheguem ou que uma voz familiar a chame para a encaminhar a um ninho de lençóis brancos e perfume de sabão.
Dormir. Dormir e esquecer que as sombras nos encontram sempre, mesmo em baixo dos lençóis.






terça-feira, 7 de março de 2017

Se eu quisesse, enlouquecia


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

sexta-feira, 3 de março de 2017

assombro

'A trama é tão assombrosa que facilmente esquecemos a qualidade da escrita' era a frase que exibia o livro que comprei, depois de ter gasto trinta minutos da minha hora de almoço a olhar para a estante de literatura fantástica com o ar de um burro que observa um palácio.

Ainda não encontrei o assombro da trama mas já quero muito esquecer a qualidade da escrita e não está a ser tão fácil como anunciavam.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lodo


« Ela cada vez andava mais desfalecida, pendia de cansaço, ofegava; mas procurava iludir os desvelos da família com um vigor que não tinha, como sucede ao náufrago quase a aferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve lutar mais tempo, se deixar-se engolir nas voragens do oceano. Gravitaria ela em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impelia para longe? Pobre flor, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma ilusão quanto a sua alma ingénua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali num volteio feérico, febril, esconder-lhe-á o lodo de um charco estagnado que a há de engolir para sempre? »


in 'As Asas Brancas', Teófilo Braga
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