quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Interacção

Lara desenhava círculos, correndo com os braços abertos, atrás de uma pomba que interagia com ela. Sorria.
-Oh, Lara! - Chamou rispidamente a senhora, que se mantinha envolvida na conversa ao telemóvel, quando percebeu que a Lara já não lhe segurava a mão.
A pequenina Lara quebrou o sorriso, baixou os braços e voltou obediente à mão que a segurava.
Vi-as da esplanada já tinha bebido o café, estava queimado. A pomba manteve-se por ali interagindo com os clientes.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Doce da Teixeira

Na Páscoa, ao passar por uma daquelas doceiras de borda de estrada, pedi à minha mãe que me comprasse um Doce da Teixeira.
Estavam expostos na mesa juntamente com os Velhotes, o Pão-de-ló, as Cavacas, os Bolinhos de Amor... à sombra do enorme toldo. Foi-nos recomendado o de Amarante, autentico, fresquinho que o do Marco de Canaveses e o de Baião também são bons mas o de Amarante, o de Amarante é que era. Foi o de Amarante e era bom mas esperava mais. Esperava que aquele Doce trouxesse cheiros do passado e me despertasse memórias.
Depois da Páscoa, aproveitando as confusões editoriais que rodearam os livros da Agustina Bessa-Luís comprei alguns que ainda não tinha com a chancela da Guimarães Editores. Nunca tinha lido o 'Longos Dias têm Cem Anos', tratei de o ler.
Em Julho fui a Amarante por alturas do mimo (festival) e comprei um Doce da Teixeira só porque sim, sem expectativas, sem saber de onde vinha. Trouxe-me cheiros e memórias extraordinários que ainda hoje não consigo dizer se são meus ou da Agustina.


'Um cálido vento sopra sobre a mata que é abrigo de amores na noite da festa sacra.Muitas moças lá deixaram a virgindade, como as primícias da solidão. Era uma festa pagã, a da Senhora dos Remédios e muito célebre. Havia corridas de cavalos, e alguma amazona homada e fantástica, como o Douro teve sempre, corria no seu Isabel levantando rolos de poeira como se fosse Miguel Strogoff no caminho de Irkutsk. Maria Helena pintou uma vez Nijni-Novgorod, movida pela imaginação da grande feira Siberiana. Mas há Novgorod em todas as feiras, ou havia. Sobretudo aquela concorrência de ciganos, lavradores, mulheres garridas, tendas de mantas e roupas feitas, de pão-doce e refrescos de aguardente que já não há. Vendia-se limonada em tarros de cortiça cobertos de erva-cidreira. E o doce da Teixeira, feito com azeite, tinha um gosto antiquíssimo, de bodas de Viriato; assim como a falacha de castanha, cozida em cima de folhas de castanheiro.'



ps Quando era miúda passava uma série de desenhos animados sobre o Miguel Strogoff devo ter lanchado, algumas vezes, Doce da Teixeira a vê-la... Isto anda tudo ligado.






terça-feira, 24 de outubro de 2017

Rica em sonhos


Sonho pouco quando durmo.
Divido o táxi com os amigos, se tiver dinheiro, caso contrário enalteço as qualidades da caminhada e vou a pé. 
Vou menos a pubs para não ter que contar trocos. 
Repito vestidos.
Vivo num apartamento velho onde as torneiras pingam.
O meu telefone esperto não tem maçãs roídas.
Odeio ratos felizmente nunca me falaram, nem em sonhos.

Nunca fiz férias num hotel. 
Repito sapatos.
Não uso unhas de gel.
Não teria uma máquina xpto para fotografar as férias, se as tivesse.
Além de poucos, raros são os sonhos de que me lembro.
Gosto de imaginar que foram bons para mim, que me chamaram Rainha...

aproveito estar acordada para sonhar os sonhos que não tive ou que tive mas não me lembro.

Beijo, Té
(Pobre em ouro)


inspirado nisto. porque tenho preguiça de escrever mas ainda comento coisas, às vezes... nisto e na Floribela, claro.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Não tentem a sorte


Não se ponham com muitas coisas, nas redes sociais, acerca do aparecimento do material roubado de Tancos, que se arriscam a que apareça a Meddie Maccan só para vos fazer mudar de assunto. Dela, passam para o D Sebastião e com um bocadinho de sorte até a Nossa Senhora de Fátima cá vem fazer uma perninha.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

E eis se não quando


Com o timing perfeito para evitar a queda de outro ministro, quiçá do governo, o material roubado de Tancos aparece na Chamusca. 
Sim! Na Chamusca. Ele há coincidências... Hum...

Justiça seja feita

O homem dá tudo pelas suas ministras.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Voluntários

Há dias, estava em casa da minha mãe, no norte, quando a sirene dos bombeiros locais se fez ouvir. A minha mãe olhou para a porta do quarto do meu irmão mais novo, que descansava depois de ter trabalhado toda a noite no seu emprego e desabafou:
-Deus queira que ele não ouça. - depois ergueu a cabeça, apontando com o queixo na direcção da morada do meu irmão mais velho e concluiu:
- E que o outro também não ouça.
Nem eu nem ela os chamamos. 

São muito tocantes as imagens de pessoas preocupadas com familiares incontactáveis que correm perigo porque foram surpreendidos por uma qualquer tragédia. Não são situações de todo desconhecidas dos familiares dos voluntários que não sendo surpreendidos por tragédias saem de casa a correr na sua direcção a qualquer hora, e usam as férias e as folgas para servir as corporações, colocando-se em risco, ficando à mercê das ordens e disposições de organizações e políticos cuja incompetência já está devidamente relatada mas que apesar de incompetents são profissionais (com remuneração, direitos, protecção social adequada, roupinha e botas novas para aparecer na TV ...).
Admiro todo o tipo de voluntáriado, principalmente o dos que se arriscam em prol dos outros mas compreendo o voluntariado como complemento. No domingo passado, tido como um dia negro da nossa história, estavam cerca de 6000 mil operacionais no terreno, alguém parou para se perguntar quantos deles eram voluntários? Qual é a percentagem de voluntários no combate aos fogos?
Não coloco em causa o trabalho dos bombeiros voluntários que conheço, agradeço e admiro mas acho que há homens dedicados que já têm alguma formação que vão adquirindo nos seus tempos livres para aplicar também nos tempos livres ( ou deixando para trás as suas obrigações) a quem devia ser dada a oportunidade de fazer o trabalho que gostam e para o qual estão vocacionados de forma profissional. Nós precisamos deles enquanto profissionais.

Nestes momentos surgem sempre relatos injustos dos que dizem da boca para fora 'e nem um bombeiro passou aqui' ou 'e os bombeiros andaram ali e não quiseram vir aqui'. Eu menosprezo porque não podem ser reflectidos e estão incorrectamente direccionados, deviam ser dirigidos a quem coordena.
Em Portugal o socorro faz-se maioritariamente por voluntários pelo que quem não se inscreve como tal ou não exige dos responsáveis políticos que alterem essa situação, se acha que os bombeiros são poucos, a única coisa que pode fazer é ficar calado. 

Estes também são tempos de mobilização via redes sociais e corre por aí uma 'convocatória' para uma marcha silenciosa contra os incêndios. Confesso que não percebo muito bem o sentido disso. Eu contra os incêndios sempre fui e sou-o por princípio, acho que tirando as quatro ou cinco dezenas de criminosos maioritariamente em prisão preventiva que praticam o acto incendiário todos somos contra. Para mim faria mais sentido uma reflexão concreta acerca do combate e prevenção dos incêndios não só acerca do voluntariado que motivou este post mas também.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

É fascinação, amor


Fascina-me o lusco-fusco.
Podem achá-lo corriqueiro por ser de frequência diária. Ou aborrecido depois de conhecerem a explicação científica daquele momento, breve, em que  dia e noite se cruzam, se envolvem e trocam de lugar.
Fascina-me. Se tivesse como vê-lo todos os dias, todos os dias me fascinaria. 
A minha vida seria em loop, de fascinação em fascinação.
Porquê?
Não sei, o fascínio não se explica, acontece.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sal não adoça café


"Não tenham medo do ruído das balas. O ruido não mata. O medo sim"

in "O Comboio de Sal e Açúcar" by Licínio Azevedo.

ps Se fosse um daqueles senhores cujo trabalho é atribuir estrelinhas a filmes sentir-me-ia frustrada com a pequenez do firmamento ao classificar este filme.