terça-feira, 12 de junho de 2018

Oxalá


Oxalá a electricidade falhe, a bateria do telemóvel carregue e o despertador desperte.
Oxalá não se acabe a água, eu possa tomar banho e lavar os dentes, preparar o colagénio para os ossos, o chá para a pequeno-almoço e a marmita para o trabalho. 
Oxalá não chova mas se chover que as botas velhas não deixem entrar a água que  eu não molhe os pés e não seque a roupa no corpo. 
Oxalá o autocarro não se atrase e a senhora mal encarada que gosta de ficar na cama até mais tarde, apanha o 7 que chega em cima da hora ao destino e acusa os outros passageiros de atrapalharem com a sua lentidão não se atrase por causa deles. 
Oxalá o multibanco já tenha dinheiro de manhã. 
Oxalá o motorista do 7 não tenha troco e fiquemos todos ali, um bocado, a trocar e destrocar notas e moedas. 


quinta-feira, 7 de junho de 2018

de Sua Língua Peculiar



“Tem cada organismo a sua língua peculiar. Os que vivem mais próximos entendem-se melhor. O ar segreda à água, a raiz ao lodo, a luz à folha, o pólen ao ovário. Há fluidos que se casam, raízes que se querem bem. O oxigénio é intimo do ferro, o azougue é intimo do ouro. Os orbes fraternizam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!”



Carta-prefácio de Guerra Junqueiro para "Os pobres"  de Raul Brandão. Único prefacio que recordo ou retive.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A cheirar desde mil nove e troca o passo


Se por obra de um qualquer acaso me vir obrigada a comprar algum livro da Agustina, publicado pela Relógio de Água, o meu primeiro acto sobre esse livro será rasgar o prefácio com que a editora achou por bem 'acrescentá-los' (como se fosse preciso, que diabo!), o segundo será cheirá-lo. 



terça-feira, 5 de junho de 2018

A conta que Deus fez



 Desfez-se em lágrimas e soluços. Desculpou-se.

- Eu sei que a menina não me conhece de lado nenhum mas a solidão é muito triste...

Eu sei!

-Ele faleceu-me há quatro meses e eu sinto-me muito só. - Parou para ganhar fôlego. Soluçou. Suspirou e quase sufocou naquele suspiro.- Dói-me muito, dói-me muito e eu ainda não lido bem com isso e quem paga é quem me aparece à frente, desculpe.- Fungou. Limpou as lágrimas ao lenço de pano do falecido e suspirou mais tranquila. - Desculpe!

Está desculpada!

- Sabe? Disse-lhe tantas vezes, 'ó homem tu nunca me faltes! Nem que seja para eu poder gritar contigo de vez em quando, nunca me faltes!' Mas a gente não manda. Ele foi embora, eu fiquei aqui sozinha e nem sequer tenho com quem gritar.

A verdade é que não a vi, imaginei. Falamos ao telefone. A nossa relação foi comercial, ela a cliente eu a assistente, mas retive-a e lembrei-me dela quando hoje, meses depois, ouvi:

- Eu sou sozinha. A minha filha é daquelas a quem tiraram as crianças na Inglaterra. Vive comigo mas voltou com uma depressão muito grande. O meu marido faleceu-me, eu sou sozinha...Deus quis assim. 

Lamento. - disse com as mãos irrequietas, como de costume, ninguém diria que acordei sem as conseguir mexer. Podia ser ela, a mesma mulher, só, no mesmo contexto.

- A minha filha - suspirou, ganhou fôlego e seguiu - a minha filha, não me ajuda. Não consegue, sou sozinha para tudo... Sofro muito dos ossos, às vezes nem me consigo mexer mas tem que ser, ninguém me ajuda. A menina é muito nova não sabe o que custa, quanto dói!

Imagino. - menti. 

Não, não era a mesma mulher e, no entretanto, perdi a conta a quantas eram. Duas viúvas, duas mães sem filhos, uma avó sem netos, mulheres sós... 

Hum... Uma, duas... Três! Sim, acho que éramos três.





segunda-feira, 14 de maio de 2018

eu

"Feitas as contas, sou neto do Estado Novo e, já bem dentro da idade adulta, formou-se em mim uma vertigem por conhecer esse avô que morreu antes de eu nascer, mas cujas fotografias ainda param lá por casa, como fantasmas proibidos de um passado difícil de desenterrar"

by Ricardo Vaz Trindade a propósito de 'Eu Salazar', projecto apresentado pelo Teatrão  em Coimbra.

quinta-feira, 8 de março de 2018

domingo, 4 de março de 2018

Questões que apoquentam


Onde fica a Vila de Ourique?

Tenho-me arrastado languidamente pela rotina quotidiana sem muito tempo para passar por cá. Mas, hoje é domingo, chove e esta noite passam os Óscares na TV portanto, eis-me aqui.
Nas últimas semanas muitos têm chegado aqui pelo Ouriquense o Blogue / diário do Eremita.
Um bloque bom, muito bom, cujo autor me colocou no seu quadro de honra e me provocou a vergonha de perceber que me leu como se não bastassem o Arpose, o Xilre, o Impontual, aquele Cigano de Malta e vocês todos que passam por aqui de vez em quando. Saber que me dedicam tempo faz-me sentir muito pequenina. Obrigada!
Para além de me fazer sentir honrada o Eremita deixou-me com esta questão comichosa onde fica Ourique? 
Conheço muitos recantos de Portugal mas a minha vida divide-se entre Coimbra e Amarante, o mais longe que estive a sul foi Vila Viçosa, nunca estive no reino dos Algarves e nunca fui às ilhas. Felizmente, agora, há esta coisa moderna da internet, já devem ter ouvido falar certamente, e numa simples pesquisa percebi que Ourique deve ser um sítio bom para estar, sossegado como eu gosto, sendo que ando numa fase de estabelecer planos para o médio prazo e com uma vontade enorme de sair daqui acho que era capaz de viver em Ourique, ser empreendedora em Ourique, uma jovem agricultora a explorar uma produção de porco-preto em Ourique...
É,  Eremita, talvez me mude para Ourique. Mas se for vou de carro, de bicicleta não que aquela coisa do isso nunca se desaprende é uma grande mentira e eu se me puser em cima de uma bicicleta o único lugar a que chego é ao chão. Ou, talvez não, talvez não me mude para Ourique mas fiquei com vontade de lá ir beber um vinho alentejano com uns enchidos a uma tasca qualquer uma infusão de ervas num copo que é um frasco de compota reciclado...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Dou por mim a interessar-me por isto

Eu, que aproveito os jogos da selecção para ir às compras sossegada e nunca sei quem vai na frente do campeonato, ouço dizer que um ministro 'cravou' bilhetes para um jogo de futebol usando o seu gabinete e estatuto, que o presidente de um clube de futebol vendeu uma posição na direcção do clube em troca de favores pessoais, que outro presidente dorme com os três olhos fechados e dou por mim a interessar-me por isto. Este é, de facto, um desporto muito bonito.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Verão


Quando vínhamos de brincar no rio, eu os meus irmãos e por vezes o meu primo, comíamos gemadas.
Abríamos os ovos e separávamos as claras das gemas bem amarelas, só as prodigiosas galinhas da minha mãe que nos brindavam com mais de duas dúzias de ovos por dia podiam produzir ovos assim amarelinhos. Guardávamos as claras para fazer Molotof  que só era difícil quando o caramelo se queimava e colocávamos as gemas em tigelas, duas gemas para cada um. Depois, deixávamos que os cristais de açúcar fizessem o resto e assistíamos ao Gladiadores Americanos que passava na SIC. Era Verão.


cáp·su·la (latim capsula, -ae, pequena caixa) substantivo feminino . Invólucro


Os filhos da geração que cresceu sem mudar de canal porque se tinha deixado convencer que isso faria com que o pedaço de cartão redondo que minuciosamente colara no canto do ecrã se desactivasse  e gastou tardes e tardes de Verão a ver os Gladiadores Americanos andam a comer cápsulas de detergente. A culpa é das redes sociais. Sim, das redes socia...hum...