terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Lusco-fusco


Dá-se recompensa a quem melhor me explicar o momento em que o dia se apaga e a noite se acende.





domingo, 4 de dezembro de 2016

Isto da vida não anda nada bonito

Há dias, depois do trabalho acompanhei uma colega à paragem do autocarro o que de resto faço sempre já que saímos pelas 22h00 e ambas nos sentimos mais seguras assim e ao aproximar-nos da paragem percebemos que estava algo no chão, algo ou alguém. Ao chegarmos à paragem percebemos que um idoso estava caído junto ao banco. Ao lado do homem estava um casal a que perguntamos se conheciam o senhor, se tinham chamado alguém... ao que responderam - nós vimos o senhor aí e como não somos de cá fomos ali (outro lado da estrada) perguntar aos taxistas se o conheciam ou se podiam chamar alguém e eles disseram que devia ser dos copos. 
Disseram que devia ser dos copos não chamaram ajuda e eles voltaram para a paragem e colocaram-se ao lado de um corpo que podia até já estar desprovido de espírito como se de um pedaço de papel se tratasse. Disseram que devia ser dos copos e eles voltaram para a sua normalidade intocáveis.
Eu liguei o 112 a minha colega fez o despiste com a linha saúde 24, apareceu gente para ajudar e acompanhei o senhor até que chegasse socorro. O senhor de 64 anos despertou, recordava-se de estar sentado no banco, era só, tinha feito uma cirurgia recentemente e apesar de diabético não comia desde as 17h00.
E se fosse dos copos? Se fosse dos copos merecia ficar ali, jazendo no chão gelado e frio numa noite de Inverno?
E se fosse eu? E se fossem eles ou um familiar? E se fossem vocês?
Deus nos dê saúde que isto não anda nada bonito, é o que vos digo. Deus nos dê saúde que as pessoas andam um bocado esquisitas.


Poder, podia, mas...


A vida podia ter-me colocado numa boa rede de contactos e influências e encaminhar-me para um lugar onde a minha frequência universitária fosse mais do que suficiente para usar o título de Doutora. Ou, fazer-me brotar de um seio tranquilo, desafogado, descendente de várias gerações de Doutores. Podia mas não era a mesma coisa.


(...)
Antão era pastor,
de manta e carapuça;
o açoite do monarca  
ao colectar a comarca,     
fê-lo da Lusa-Atenas doutor, 
doutor de borlas e Murça. 
À viúva alugou a mula ruça!”     

Livro da Marianinha – Aquilino Ribeiro


domingo, 20 de novembro de 2016

'Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo'


Se o meu mundo se resumisse a outro, se o meu mundo fosses tu a minha linguagem limitar-se-ia a ti.


Nota: ler Wittgenstein, ver Godard e deixar-me de ideias românticas.





terça-feira, 8 de novembro de 2016

13


'Como pode um homem falhar tão horrivelmente como eu?'
 Johann Georg Elser

No dia 8 de Novembro de 1939, uma bomba explodiu em Munique pelas 21h20, exactamente como Elser tinha planeado mas, Hitler havia saído da sala treze minutos antes.
A neblina impediu Hitler de regressar a Berlim de avião como previsto, teve que apanhar o comboio.
Morreram 8 pessoas, 63 ficaram feridas

Estava para ver uma comédia mas, a realidade está tão boa


A web summit, arrancou com falhas de internet e com cerca de 3000 participantes à porta porque 'chegaram tarde'. Ou seja, jovens bem relacionados com famílias maioritariamente abastadas pelo que nada temem, que vendem as suas ideias como interessantes e revolucionárias recebendo por isso milhares, até mesmo milhões de euros de financiamento proveniente maioritariamente de governos e fundações que tendo determinado que tinham que entregar x ou y para investigação vão passando cheques às ideias que lhes chegam sem garantia de retorno e na melhor das hipóteses vêem ao fim de 2 ou 3 anos ser-lhes apresentado um protótipo que os chineses já produzem antes mesmo de o darem como findo...esses! Pagaram até 5000 euros para participar de um evento de 'tendências' da internet onde a internet não funciona, que não tem lugar para todos e ainda os acusa de se terem 'atrasado'.

Sim! É verdade. Existem algumas empresas designadas como Startups que tiveram sucesso, produziram de facto e facturaram para além de investimento captado a fundo perdido. Mas, a mim não convencem. Para mim as Startups estão para o tecido empresarial como os Jovens Agricultores estão para os produtores agrícolas ou os Jotinhas para a militância politica...nunca mais são adultos!

Entretanto no maravilhoso mundo da Tugolândia António Costa foi acender o Galo da Joana Vasconcelos mas o comando não tinha pilhas. 
Sim, mais uma vez a senhora apropriando-se de um ícone da cultura popular, engordou a carteira aproveitando a exclusividade que goza junto do regime e trocando criatividade por dimensão.
Lembrei-me, a propósito, da artista Júlia Côta, autodidacta, representante viva de um clã de Côtos que viveu sempre entre o barro  moldando-o com as formas que lhe ditava o coração, muito simpática e sempre pronta a dois dedos de conversa, mesmo que não lhe comprem as obras. Tenho-me cruzado com ela  em alguns certames de arte popular e não tenho duvida nenhuma de que a sua arte é mais autentica do que a da Joana, apesar de concordar que isso da arte é muito subjectivo.




sábado, 29 de outubro de 2016

apreciar, apreçar


Num dos episódios da série Peanuts, baseada na obra homónima do Charles Schulz, a turma do Charlie Brown vai em visita de estudo a um museu. Ao chegar ao local, Charlie Brown e os amigos mais próximos, perdem-se do resto da turma e entram num supermercado pensando que estavam a entrar num museu.
Tudo lhes pareceu extraordinário, tudo lhes mereceu análise e despertou sensações. Foi uma experiência nova da qual saíram transformados, iam predispostos a ver arte e encontraram-na em tudo o que viram.


Rainha Isabel II, num supermercado de Poundbury, 27 de Outubro de 2016

Rainha Isabel II, na sua primeira visita a um supermercado, Outubro de 1957



ps Se calhar, não devia terminar o post sem fazer uma consideração qualquer mas, vocês tratam bem disso sozinhos. Certo?


A night so still


Não resisti. Fui ver os Tindersticks. Estavam mesmo aqui à porta não dava para resistir muito. Poupo noutra coisa qualquer, isto de viver não pode ser só trabalhar e pagar contas.
O concerto foi maravilhoso. Cruzei-me com eles, há tarde, a caminho do trabalho estavam no semáforo, aquele maldito semáforo que leva horas a ficar verde para os peões, tentavam atravessar porque estava no laranja intermitente e há uma passadeira pintada no chão mas, recuavam a cada dois passos em frente com expressão de quem pensa o mesmo que eu - Mas, estes bárbaros não param?! Se querem ter prioridade numa cidade andem a pé!  Senti-me partilhar algo mais com eles do que a simples melancolia soturna e   Não tive coragem para lhes dizer Follow me, eu ensino-vos o truque para chegar ao outro lado mais depressa.
Há noite, depois do trabalho eles disseram , ou melhor tocaram Follow me (o primeiro tema do último CD, Waiting Room) e foi maravilhoso depois do rebuliço do dia A night so still.





segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Pirateada


Ando sem grande paciência para coisas ou pessoas.
Faço o indispensável. Passei o fim-de-semana quase todo em casa, fui às compras, à sala de espectáculos vizinha garantir uns bilhetes, fiz sopa para o jantar e para o resto da semana e pouco mais.
Depois de jantar o facebook convidou-me a ver onde tinha iniciado sessão, acedi e fiquei a saber que nas ultimas 24h00 tinha acedido ao facebook em Gaia e em Lisboa. Sentia-me mal por ter tido um fim-de-semana pouco produtivo mas afinal, segundo o facebook, fartei-me de passear ou alguém o fez por mim.

Interrompo várias vezes a minha utilização de facebook, fi-lo recentemente mas, como mudei de trabalho e é uma forma de contacto útil entre colegas voltei a utilizar. Uso-o como agregador de informação e partilho artigos cuja leitura interrompo por alguma razão, ficam lá para que termine de os ler quando tiver tempo, não ando à procura de 'gostos'. Quem teria interesse em aceder ao meu facebook? Não tenho lá segredos. E, porquê Gaia? E Lisboa?

Sinto-me pirateada. Nada tenho a perder pois não tenho tesouros mas, sinto-me invadida.
São os riscos que corremos por andar neste mundo virtual. Antigamente só nos espreitavam quando estávamos em casa se deixássemos as cortinas abertas.





quinta-feira, 20 de outubro de 2016

I see things




An elephant from the American vaudeville stage riding a specially constructed tricycle, 1918 (Photo by Fox Photos/Getty Images)

Toponímia

Atire a primeira pedra quem não pensou, mesmo que por uns segundos, que Carro Queimado era uma pista e não a terra onde o suspeito  se tinha escondido.

Antes destes tempos motorizados as terras tinham nomes decentes como Várzea de Ovelha e Aliviada, Vale da Rata, Venda da Gaita... para além de criativa a toponímia apelava ao sentimento pelo que podemos encontrar Angústias em Paredes de Coura ou Amor ali para os lados de Leiria...

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

like a rolling stone

Não levem a peito. Qualquer dia o Le Carré ganha um prémio na MTV e ficam todos amigos outra outra vez.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Há festa na aldeia


Para mim, é mais uma semana a trabalhar sem dormir, graças aos decibéis que me chegam do parque e transformam o meu quarto numa discoteca que acaba de contratar o pior Dj de que há memória.
Para os doutores uma semana de férias, mais uma.

A farsa, nº 05, 13 de Março de 1910

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Are you talking to me?


Eu como desencartada e frequente utilizadora de transportes públicos que vive numa cidade onde os taxistas ignoram os sinais de potenciais clientes para que os mesmos tenham que ligar para a central, que já pagou várias vezes avultada taxa de bagagem para ter que ser a própria a colocar a malinha na bagageira do carro enquanto o taxista a observava pelo espelho no conforto do lugar do condutor e que já foi maltratada por um taxista que estava na praça de táxis sem serviço/livre e achou insultuoso que fosse para um destino tão próximo - ó menina vem-me agora chatear para ir para aí, isso não chega a 10 euros! (passou de 5, por cinco minutos de trabalho e 3km de combustível e desgaste), que já viu a vidinha andar para trás quando um taxista que a transportava pelas dez horas da manhã de um sábado adormeceu e só acordou com o sobressalto de ter arrancado o espelho de um carro estacionado....Eu, nem sei o que vos diga.









sábado, 8 de outubro de 2016

Hospedei-me


aqui




Questões que me apoquentam


Há, cada vez mais, homens jovens a comportar-se como cat ladies, crazy cat ladies.








so not true!
Atentem que o livro em questão foi escrito por um comediante não o levem à letra caros crazy cat duddes


Na vida como no cinema

Era tão bom! Os meninos faziam-nos promessas e nós acreditávamos.

(...)

'Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
E que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo

O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à lua
Nem que eu roube a lua,
Só p'ra ti'


Depois crescemos, encontramos a realidade e descobrimos que não há heróis.



John Wayne, seguido do seu cavalo em 1959


Clint Eastwood,1972

O problema dos homens é desconhecerem que nós sabemos isso. 



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Deep from the heart





“All the best ♥”, escreve Juncker, à mão, desejando o melhor a Guterres oferecendo-lhe o coração.
Eu bem que desconfiava que não passava de uma jovem senhora romântica. Aliás, só isso explica que esteja à frente da Comissão Europeia, ser uma jovem senhora é a sua melhor qualidade.


Um lamento estridente

Para todos os que desperdiçaram o feriado numa fila, para visitar o MAAT gratuitamente, um lamento sentido e uma estridente gargalhada.
O MAAT terá entrada gratuita até Março de 2017!

Tansos...





segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Presente aquém do futuro que sonhamos

Andava eu, na minha triste vidinha, a disputar restos de promoções com velhas matreiras e escorregadias quando ao microfone da loja alguém gritou:

- Joana d'Arc à sua caixa! Joana d'Arc à sua caixa!

Senti-me melhor acerca da minha triste condição.
Se até ela que privou com Deus nosso senhor o todo poderoso acabou numa caixa de supermercado, ter trabalho é uma sorte.




Sonho

Ontem depois da ópera adormeci e sonhei. Normalmente sei quando sonho mas, não me lembro do sonho. Ontem retive a experiência vivida no subconsciente.
Depois da ópera, bufa, sonhei que estava num hotel, um hotel chique onde também se hospedava o Elton John e estava felicíssima porque me tinham chamado ao quarto dele para receber uma lembrança. O Elton foi bastante cordial, recebeu-me com um sorriso e deu-me uma camisola azul autografada.
Não gosto particularmente do Elton John, não tenho dinheiro para me hospedar em hotéis e não sou do género de coleccionar autógrafos. Por que raio fui sonhar com isto?  E, por que raio de todos os sonhos que tenho ou devo ter me recordo logo deste?


domingo, 2 de outubro de 2016

A Vespetta ficou rouca


Diria que para o personagem foi castigo merecido já para a interprete foi um azar imerecido que veio atrapalhar uma excelente performance.
Gostei muito apesar do final apressado, a adaptação é excelente, os músicos e os cantores também.
São da zona centro e vão andar por aí, recomendo.




SINOPSE
O “Intermezzo Pimpinone” foi um dos maiores sucessos do compositor alemão Georg P. Telemann (1681-1787). Para aliviar as fatídicas histórias das grandes tragédias, que muitas vezes exigiam longas trocas de cenário, era comum intercalar nos intervalos os chamados intermezzi com música mais leve, com temas cómicos, seguindo a tradição da ópera buffa.
A história começa com a camareira Vespetta em busca de um marido e vê no rico mercador Pimpinone uma possibilidade de independência. Assim, deliberadamente, Vespetta seduz Pimpinone que se apaixona por ela e lhe oferece emprego.
FICHA TÉCNICA
Compositor Georg P. Telemann
Libretto J.P. Praetorious
Tradução Ema Maia, Graça Maia, Miguel Dias e Tânia Ralha
Adaptação vocal António Ramos e Tânia Ralha
Encenação, Cenografia e Figurinos Mário Alves
Direção musical António Ramos
Cantores Nuno Mendes e Tânia Ralha
Figurante Dinis Ludgero
Orquestra Camerata Joanina António Ramos, Clara Dias, Sofia Grilo (Violinos), Ricardo Mateus (Violeta), Rogério Peixinho (Violoncelo), Samuel Pedro (Contrabaixo), Rui Grenha (Guitarra Barroca), Raquel Resende (Cravo)

Produção Jorge Silva e André Janicas

sábado, 1 de outubro de 2016

O barquinho da Joana

     
      Eu tenho muita dificuldade em aceitar algumas ‘obras’ como arte, já disse. Não me parece que um qualquer objeto passe a ter estatuto de arte só porque o autor arranjou uma boa soma de palavras para o elevar a tal categoria. A mim parece-me necessário que outras características, como a originalidade, devem ser a eles associadas para que sejam realmente arte.
        Portugal apesar de ter um património cultural (material, imaterial, móvel e imóvel) imenso não tem a cultura como prioridade. No entanto, tem feito algum investimento na arte. Em 2013, participou novamente na bienal de Veneza, o que é bom. Só não se compreende porque é que em lugar de diversificar, levando artistas diferentes repetiu a aposta numa artista que já recebera esse apoio, Joana Vasconcelos. Não gosto de grande parte das suas obras. Talvez seja porque tive má nota em alguns trabalhos de EVT que eram muito mais bonitos.
        Sim, os sapatos são giros e os corações também (deve ser por isso que os está sempre a repetir nas suas mostras). Mas, grande parte da sucata e quinquilharia que apresenta não passa disso! Quando começou a embrulhar peças do Bordalo Pinheiro em bordados nem sequer se dava ao trabalho de fazer um estudo de cores, comprava bordados nas feiras e remendava-os. Eu vi! Patch work qualquer dona de casa faz mas, ninguém as leva a Veneza!
        Para a bienal de 2013 a senhora optou por um cacilheiro. Mais uma ‘obra’ que não consigo ver como arte. Em primeiro lugar porque qualquer miúdo do 5º ano a quem se proponha que faça um trabalho sobre os portugueses através da arte pensaria num barco que acabaria por estilizar com ou sem bordados; em segundo lugar porque quando vamos a um museu dos transportes ninguém chama arte aos veículos que lá estão e por último porque a ideia de levar um barco ao estrangeiro para representar Portugal, que a senhora e respetiva equipa diziam ser pioneira em muitas dimensões, como podem ler aqui, não é lá muito inédita...
        Em 1940 Portugal organizou a Exposição do Mundo Português e imaginem só o que é que os portugueses decidiram criar? Um barco!
        Mais propriamente uma nau que depois da exposição deveria viajar pelo mundo mostrando aos estrangeiros as maravilhas do mundo Português. Tal como o cacilheiro da Joana Vasconcelos teve alguma dificuldade no arranque.
        A ‘Nau Portugal’ construída propositadamente para o efeito, em Aveiro, tombou assim que foi colocada na água mas, foi recuperada e exposta em Lisboa e embora não tenha seguido para o estrangeiro a ideia já era essa (a Europa agora está em crise mas na época o mundo estava em guerra).
       O cacilheiro da queriduxa Joana arrancou e ainda se aguentou uns tempos, pelas águas desse mundo mas, hoje encalhou ali no Cais dasColunas, no emblemático Cais das Colunas.

Podem ver no filme que se segue do Leitão de Barros que termina com a frase curiosa de que "os portugueses actuais sabem repetir as obras-primas do passado (…)" eu olhando para a ‘Nau Portugal’ e para o ‘Cacilheiro Trafaria’ acredito que isso já não é bem assim...






Uma questão de vistas


Cavaco pagou metade do IMI pela casa da Coelha, porque ver bifes da terceira idade a passear sem camisa é pior do que ter vistas para o cemitério.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Make my day



Spies (1928) By Fritz Lang

Instalação


Sempre tive muita dificuldade em compreender a arte que só o é na justificação teórica que os autores se sentem obrigados a dar para que ela faça sentido.
A arte dispensa justificação. Chega-se a nós e instala-se sem pedir licença.
Há uns meses plantaram na margem esquerda do Mondego (na minha margem) um pequeno museu vazio. Inauguraram-no com pompa, anunciaram um curador,  um director, um conservador, justificaram despesas e deixaram-no ali vazio.
O espaço tinha intenção de ser aberto e servir os locais e serviu. O cheiro a urina que se sente misturado com o orvalho matinal deixa adivinhar que foi bastante útil.
Passou cerca de um ano desde que plantaram ali o museu vazio, finalmente, parece que preparam a sua primeira 'instalação'. Seja o que for, acho que perderam uma grande oportunidade de fazer verdadeira arte e nem se deram ao trabalho de arranjar uma  justificação interessante para o que fizeram, plantaram um caixote e escreveram Museu no sentido errado.

Perceberia melhor o espaço se a palavra museu estivesse escrita para ser lida de dentro para fora de forma a apelar aos frequentadores que se deixassem interpelar pela vida, pelo quotidiano.




Já os meus vizinhos sem que lhes fosse solicitado e sem necessitarem de justificação, certo dia provocaram-me um belo arrepio quando depois de ter colocado no lixo uma velha passadeira dei com ela estendida nas escadas que ligam a minha rua à rua de baixo. Não precisaram de directores ou curadores e fizeram uma instalação muito bonita.
As pessoas que andam por aí a justificar obras deviam andar mais na rua e deviam encontrar-se com os meus vizinhos...



as fotos para além de más, são minhas.

domingo, 25 de setembro de 2016

Cheiro



Damos conta de que os intervalos televisivos estão repletos de publicidades a perfumes e somos impelidos a fazer o balanço do ano que está a terminar, já que o Natal parece tão próximo…

Lembrei-me a propósito de colocar um pouco de Maroussia que me sobrou dos anos 90 e gostei. Trouxe-me recordações e imaginei-me no Oriente, fez-me regressar a sítios onde, de facto, nunca estive.
O cheiro serviu de veículo para uma viagem espaço-temporal. 



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Coitados, andam tão enganadinhos


Afirmarem-se defensores da proibição do burkini numa praia de França, da Europa, confortavelmente sentados em Portugal, porque isso vai proteger as mulheres lá da Arábia Saudita e é uma afirmação contra o apedrejamento de mulheres, excisão feminina e tal... está para alguns defensores da igualdade de género como distribuir arroz por IPSS's religiosas dependentes do estado está para a Jonet em termos de caridade.




domingo, 18 de setembro de 2016

Tem o seu mérito


Acredito que  a mais recente publicação do José António Saraiva é merecedora de um Ig Nobel. Reúne as condições necessárias. Primeiro faz-nos rir e depois pensar.
Lemos 'vida sexual dos políticos portugueses' e rimos mas depois, pensamos 'hum, espera lá...eles fodem?' É inovador, nunca nos tinham obrigado a pensar nisso.

Tem mérito! Não sei é como vou tirar a imagem que me vem à cabeça do Sr Marcelo Rebelo de Sousa com o seu pescoço de tartaruga ou do Sr invertebrado Cavaco, sendo que estes podem não ser mencionados pelo José António Saraiva. Bastou dizer ao que vinha não precisamos de ler o livro para que a ideia nos precipite para o riso e  posteriormente para a reflexão mesmo que esta desagúe em indignação.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Apaguem as luzes que eu quero ver a lua


Agradecida!








Conselho extraordinário


Hoje saí para trabalhar e deparei-me com tamanho aparato policial que pensei que tinha acontecido uma desgraça na minha rua. Depois, reparei nos carros de gama alta estacionados à porta do centro de congressos cada qual com seu segurança engravatado segurando um guarda-chuva para qualquer eventualidade e lembrei-me do conselho de ministros. Ainda vi a senhora ministra da Justiça entrar no automóvel.
Os policias amontoavam-se em grandes grupos e alguns pareciam aborrecidos. Não haviam manifestantes.
Segui para o trabalho e na Fernão Magalhães, em plena luz do dia, um homem retirou à minha frente e à de quem mais por ali passava, um saco pequeno, transparente e cheio de pó branco de uma caixa de electricidade, gás, água ou outro serviço qualquer. Ali mesmo, entre as 14h30 e as 15h00, de uma parede à porta de uma pensão, junto à Loja do Cidadão.
Eu vi, outras pessoas viram, os policias, que estavam aborrecidos à porta do Convento de São Francisco, não.

Quando saí do trabalho, tudo tinha voltado ao normal.

Cruzei-me com drogados, ou meros apreciadores de açúcar em pó que claramente exageram na dose. Cruzei-me com putas, chulos e não vi um único polícia, coitadinhos àquela hora já deviam estar a descansar, tiveram um dia extenuante.


ps Entretanto as gentes ilustres da cidade, os que privam com ministros e seus agregados discutem coisas tão importantes como um cartaz acerca das praxes académicas . Interessante pensar que o cartaz foi afixado por uma dessas jotinhas S D desta vida que acabou de colocar o líder de uma das suas sucursais (é assim que se diz?) na 'Casa dos Segredos' alguns dias após ter morrido mais um soldado vitima de bullying  perdão, praxe oh perdão novamente, golpe de calor era o que queria dizer, um soldado ter morrido com um golpe de calor (fico a admirar ainda mais os bombeiros sempre que um parvo qualquer acredita que nos vai impingir esta idiotice). Este reino cheira a podre...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Não que vos deva explicações

Não que vos deva explicações mas, já que quereis saber sem perguntar...

Sim, é verdade. Tenho dinheiro reservado para poder recorrer a uma procriação medicamente assistida.
Não, não tem a ver com a minha 'opção' ou natureza sexual. Sou heterossexual mas se não fosse valia o mesmo, certo?
Tenho dinheiro reservado porque tenho poucas certezas na vida mas, uma delas é que serei mãe. Tenho 33 anos e sou só. Sou solteira e não vou deixar que o meu desejo dependa de ter ou não um pai para o rebento. Se daqui a três, quatro anos continuar sozinha começo a tratar de colocar o plano em prática.
Até há pouco tempo a lei era discriminatória para com as mulheres solteiras pelo que todo o processo era tratado em clínicas portuguesas mas, a mulher tinha que ir a Espanha concretizar o que por lei só lhe estava disponível além fronteiras. Felizmente, isso mudou e já não terei que ir a Espanha (assim espero!).
Não estou só por opção, acredito mesmo que ninguém prefere estar só por muito que publicite a sua independência egocêntrica mas, não será por querer ser mãe que me vou lançar numa caça furtiva de homens, até porque não tenho feitio ou jeitinho para isso.
Não calhou! Se calhar óptimo aplico o dinheiro no enxoval da criança, do meu filho. Se não calhar, não deixarei que a minha decisão se anule na falta de um homem.
Acho isto bastante simples, não compreendo a curiosidade e não estou disponível para aceitar qualquer julgamento moral ou social acerca desta decisão.

Tenho dito!


Monday Morning



Buster Keaton

domingo, 11 de setembro de 2016

dos Segredos


Não compreendo a aposta da TVI numa nova série da 'Casa dos Segredos'.
Agora, até os juízes dão entrevistas. E, nem um 'domus iustitiae dos segredos de estado' faria sentido. Já não há segredos, há manipulações.






Queridos vizinhos,

lamento.
Isto de ser uma mulher do caraças (já não posso dizer caralho, descobri que tenho familiares a ler-me) é muito bonito e tal mas, também é muito limitador. O que somado ao facto de ser demasiado ecléctica, no que se refere ao meu gosto musical, se reflecte na banda sonora com que vos tenho preenchido os últimos dias.
Bem sei que depois de um Nick Cave esperavam mais Nick Cave mas, a minha frustração por não assistir ao novo filme do Nick Cave é identica à de não poder assistir ao concerto dos The Cure, ao do Aznavour ou ao da Patti Smith, assim como, à de não ter assistido aos sigur rós ou ainda não ter tido oportunidade de assistir ao do Sérgio Godinho com o Jorge Palma (deus lhes dê saúde até eu ter dinheiro!), não ter ido ao Bons Sons onde esteve a Cristina Branco e...tantos, tantas outras frustrações que vós já conheceis.
Culpai a formação musical que me deram na infância, intercalar Mozart e Bethoven com Manzarek não podia ter outro resultado.
Lamento. Lamento muito e aproveito para vos avisar que só hoje soube que o Peter Murphy vai ser nosso vizinho por uma noite.



7h00, manhã de Março

da vossa,
querida vizinha da cave.

A falta de luz cria grandes ilusões.



Buster Keaton

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Não fosse aquilo das photomatons…


Há tempos fiz uma lista, daquelas tontas onde reunimos objetivos de vida. Analisei o meu deve e haver, percebi que a vida ainda me devia muito e assentei o que me faltava.
Filhos, não que o ser mulher o imponha, há mulheres que não pensam nisso eu penso muito. Ir a Machu Picchu, acabar uma licenciatura (já que ando por aí a frequentá-las) conquistar um emprego estável, pagar o apartamento, ter a minha empresa… o costume. O costume mais – tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton e menos casar que considero, cada vez mais, um aborrecimento desnecessário.
Há cerca de 2 meses, entreguei à minha entidade patronal o pré-aviso de rescisão contratual.
Para além de analisar o saldo do que a vida me dá, analiso frequentemente o saldo da conta bancária. Felizmente atingi, novamente, aquele ponto em que posso investir qualquer coisinha sem correr o risco de ficar sem tecto nos meses seguintes.
A opção óbvia seria tirar a carta de condução e comprar um carro, qualquer coisa de quatro rodas que se mexa. Algo simples, estou habituada a viver com pouco e a minha capacidade de investimento chega antes de ter atingido o valor do salário de um deputado da nação. Era a opção óbvia mas, como sou medricas, não distingo a direita da esquerda, tinha um trabalho que mal suportava e uma licenciatura à espera de ser terminada, resolvi apostar na minha qualidade de vida e demiti-me. No mesmo dia olhei-me ao espelho e pensei – Mulher do Caralho! Senti-me orgulhosa. Na manhã seguinte o medo já tinha substituído qualquer réstia de orgulho. Nunca fui boa a gostar de mim, a acreditar em mim.
Recebi o que me era devido e fiquei com uma porta aberta. Espero não ter que voltar, não quero passar a vida a trabalhar num sítio onde me sinto explorada mas, se precisar voltarei, desde que isso me aproxime de concretizar os pontos que assentei na tal lista…
Em Setembro regresso, outra vez, à faculdade e entretanto já tenho outro emprego.
Pensei que seria mais fácil, não contava com a concorrência desleal do IEFP. Pequenos empresários, empresas familiares, grandes empresas, todos recorrem ao IEFP para preencher as vagas e o IEFP fornece-lhes mão-de-obra qualificada pelos programas de emprego ao preço da Uva Mijona. Depois de enviar muitos currículos, passar por muitos processos de recrutamento e entrevistas consegui.
- Consegui! Mulher do Caralho!  - Pensei. Mais uma vez passou-me depressa mas, aproveitei o entusiasmo que a mudança me trouxe para colocar as gavetas em ordem. Encontrei na gaveta das meias, entre os collants com foguetes que guardo para vestir no inverno, a tal lista.
Confesso que já não me lembrava dela, fui invadida pelas habituais nostalgia do tempo e melancolia das coisas, uma série de bonitas manifestações daquelas que todos sentimos mas, como não sabemos descrever traduzimos em palavras caras. Estranhei a ordem dos objectivos traçados e assentados.
Em primeiro lugar - tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton. Já na altura reconhecia a dificuldade que tenho em lidar comigo mesma, com a minha imagem. A verdade é que já sabia que podia ser uma mulher do caralho não fosse aquilo das photomatons. 
Quis abandonar um curso, abandonei. Quis comprar casa, comprei. Quis voltar a estudar, voltei. Quis mudar de trabalho contra a conjuntura e opinião de todos, mudei. Quero ter um filho, pus o dinheiro de lado para quando o dia chegar e já nem preciso ir a Espanha, terei. Gostava de ter coragem de me levantar, dirigir a uma máquina, tirar um retrato, olhá-lo sem recear o resultado e exibi-lo, não tenho.

É, não fosse aquilo das photomatons e seria uma mulher do caralho.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

loop



Sentei-me à cabeceira da mesa da cozinha, de lado para poder encostar-me aos azulejos frescos, as bananas maduras perfumavam o ar.
Dei por mim a ouvir este trabalho do Rodrigo Amarante (Cavalo) em loop. Enquanto isso, um pequeno mosquito rodopiava sobre as letras dos vossos textos, na tela do computador. Perdi-o de vista, ao mosquito, quando me perdi, a mim, num pequeno verso. Já estava numa prosa quando voltei a vê-lo, tinha o dobro do tamanho. Perdi-o outra vez, e mal me tinha refeito do susto quando o zumbido de uma mosca me chegou vindo da fruteira onde repousam as bananas. 
Sabendo que aquela história das moscas viverem apenas 24 horas é um mito, fiquei a pensar qual terá sido a espécie de feitiço que se formou na minha cozinha envolvendo-vos, a vós, ao Rodrigo, às bananas e às moscas...





Curva


Há dias que são uma festa da qual saio curvada.


Muybridge


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Lado Esquerdo


'A margem esquerda dos rios não apetece tanto, seja porque o sol a procura em horas mais solitárias, seja porque a povoa gente mais tristonha e descendente de homiziados e descontentes do mundo e das suas leis.'

Agustina Bessa Luís, Vale Abraão

As minhas casas são, ambas, na margem esquerda. 
Uma, à esquerda do Odres, em frente ao moinho do menino Toninho das Pias o moleiro que sempre conheci velho. A outra, na margem esquerda do Mondego, terra pisada por Reis. 
Calhou-me.



sábado, 27 de agosto de 2016

Tacto

Toque sensível.


Laure Albin Guillot estampa publicitária



Laure Albin Guillot, ilustração para Préludes de Claude Debussy, 1948



Laure Albin Guillot, 1930



Laure Albin Guillot, publicidade a Cigarros



1930



1930


Gotas

A dona Ivete escolheu o lugar à minha direita, o outro era de costas para o destino e ela enjoava menos viajando de frente. Falou-me dos enjoos, do tempo, do atraso com que o comboio seguia e outras trivialidades.
- A menina tem horas? - perguntou-me.
- Sim, são dez e vinte.
- Então, quando forem dez e meia avisa-me, por favor?
- Sim, claro!
Estávamos a partir da penúltima estação antes do destino quando no telemóvel surgiram as dez e meia.
- São dez e meia. - disse-lhe.
A dona Ivete tirou da mala uma bolsinha e da bolsinha tirou um frasco e disse - Então, se não se importa, põe-me estas gotas nos olhos.
Anuí. Segurei a pálpebra como se de uma relíquia se tratasse. 
Lidava com olhos antigos e cheios de histórias, não queria fazer asneira. Fui cuidadosa mas, no momento em que a gota largava a ponta do frasco, o comboio deu um solavanco e a gota caiu fora do olho.
- Oh, caiu fora. Não faz mal.- parecia querer tranquilizar-me - Às vezes acontece, o que é uma chatice porque as gotas são muito caras mas, acontece. É por serem tão caras que tento cumprir o horário à risca. - Engoli em seco.
Suava em bica quando voltei a tentar. A responsabilidade era grande, as gotas eram caras, tanto que ela preferia pedir a um estranho que as colocasse num comboio em andamento a antecipar o horário cinco minutos beneficiando de uma paragem.
Uffa, consegui! 
A dona Ivete colocou o frasco na bolsinha e a bolsinha na mala.
Pouco depois, chegamos ao destino. A dona Ivete olhou o pulso afastou o punho da blusa e disse, mirando um pequeno relógio - Estamos oito minutos atrasados. 
Era uma pessoa rigorosa.
Nunca mais a vi.