sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Make my day



Spies (1928) By Fritz Lang

Instalação


Sempre tive muita dificuldade em compreender a arte que só o é na justificação teórica que os autores se sentem obrigados a dar para que ela faça sentido.
A arte dispensa justificação. Chega-se a nós e instala-se sem pedir licença.
Há uns meses plantaram na margem esquerda do Mondego (na minha margem) um pequeno museu vazio. Inauguraram-no com pompa, anunciaram um curador,  um director, um conservador, justificaram despesas e deixaram-no ali vazio.
O espaço tinha intenção de ser aberto e servir os locais e serviu. O cheiro a urina que se sente misturado com o orvalho matinal deixa adivinhar que foi bastante útil.
Passou cerca de um ano desde que plantaram ali o museu vazio, finalmente, parece que preparam a sua primeira 'instalação'. Seja o que for, acho que perderam uma grande oportunidade de fazer verdadeira arte e nem se deram ao trabalho de arranjar uma  justificação interessante para o que fizeram, plantaram um caixote e escreveram Museu no sentido errado.

Perceberia melhor o espaço se a palavra museu estivesse escrita para ser lida de dentro para fora de forma a apelar aos frequentadores que se deixassem interpelar pela vida, pelo quotidiano.




Já os meus vizinhos sem que lhes fosse solicitado e sem necessitarem de justificação, certo dia provocaram-me um belo arrepio quando depois de ter colocado no lixo uma velha passadeira dei com ela estendida nas escadas que ligam a minha rua à rua de baixo. Não precisaram de directores ou curadores e fizeram uma instalação muito bonita.
As pessoas que andam por aí a justificar obras deviam andar mais na rua e deviam encontrar-se com os meus vizinhos...



as fotos para além de más, são minhas.

domingo, 25 de setembro de 2016

Cheiro



Damos conta de que os intervalos televisivos estão repletos de publicidades a perfumes e somos impelidos a fazer o balanço do ano que está a terminar, já que o Natal parece tão próximo…

Lembrei-me a propósito de colocar um pouco de Maroussia que me sobrou dos anos 90 e gostei. Trouxe-me recordações e imaginei-me no Oriente, fez-me regressar a sítios onde, de facto, nunca estive.
O cheiro serviu de veículo para uma viagem espaço-temporal. 



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Coitados, andam tão enganadinhos


Afirmarem-se defensores da proibição do burkini numa praia de França, da Europa, confortavelmente sentados em Portugal, porque isso vai proteger as mulheres lá da Arábia Saudita e é uma afirmação contra o apedrejamento de mulheres, excisão feminina e tal... está para alguns defensores da igualdade de género como distribuir arroz por IPSS's religiosas dependentes do estado está para a Jonet em termos de caridade.




domingo, 18 de setembro de 2016

Tem o seu mérito


Acredito que  a mais recente publicação do José António Saraiva é merecedora de um Ig Nobel. Reúne as condições necessárias. Primeiro faz-nos rir e depois pensar.
Lemos 'vida sexual dos políticos portugueses' e rimos mas depois, pensamos 'hum, espera lá...eles fodem?' É inovador, nunca nos tinham obrigado a pensar nisso.

Tem mérito! Não sei é como vou tirar a imagem que me vem à cabeça do Sr Marcelo Rebelo de Sousa com o seu pescoço de tartaruga ou do Sr invertebrado Cavaco, sendo que estes podem não ser mencionados pelo José António Saraiva. Bastou dizer ao que vinha não precisamos de ler o livro para que a ideia nos precipite para o riso e  posteriormente para a reflexão mesmo que esta desagúe em indignação.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Apaguem as luzes que eu quero ver a lua


Agradecida!








Conselho extraordinário


Hoje saí para trabalhar e deparei-me com tamanho aparato policial que pensei que tinha acontecido uma desgraça na minha rua. Depois, reparei nos carros de gama alta estacionados à porta do centro de congressos cada qual com seu segurança engravatado segurando um guarda-chuva para qualquer eventualidade e lembrei-me do conselho de ministros. Ainda vi a senhora ministra da Justiça entrar no automóvel.
Os policias amontoavam-se em grandes grupos e alguns pareciam aborrecidos. Não haviam manifestantes.
Segui para o trabalho e na Fernão Magalhães, em plena luz do dia, um homem retirou à minha frente e à de quem mais por ali passava, um saco pequeno, transparente e cheio de pó branco de uma caixa de electricidade, gás, água ou outro serviço qualquer. Ali mesmo, entre as 14h30 e as 15h00, de uma parede à porta de uma pensão, junto à Loja do Cidadão.
Eu vi, outras pessoas viram, os policias, que estavam aborrecidos à porta do Convento de São Francisco, não.

Quando saí do trabalho, tudo tinha voltado ao normal.

Cruzei-me com drogados, ou meros apreciadores de açúcar em pó que claramente exageram na dose. Cruzei-me com putas, chulos e não vi um único polícia, coitadinhos àquela hora já deviam estar a descansar, tiveram um dia extenuante.


ps Entretanto as gentes ilustres da cidade, os que privam com ministros e seus agregados discutem coisas tão importantes como um cartaz acerca das praxes académicas . Interessante pensar que o cartaz foi afixado por uma dessas jotinhas S D desta vida que acabou de colocar o líder de uma das suas sucursais (é assim que se diz?) na 'Casa dos Segredos' alguns dias após ter morrido mais um soldado vitima de bullying  perdão, praxe oh perdão novamente, golpe de calor era o que queria dizer, um soldado ter morrido com um golpe de calor (fico a admirar ainda mais os bombeiros sempre que um parvo qualquer acredita que nos vai impingir esta idiotice). Este reino cheira a podre...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Não que vos deva explicações

Não que vos deva explicações mas, já que quereis saber sem perguntar...

Sim, é verdade. Tenho dinheiro reservado para poder recorrer a uma procriação medicamente assistida.
Não, não tem a ver com a minha 'opção' ou natureza sexual. Sou heterossexual mas se não fosse valia o mesmo, certo?
Tenho dinheiro reservado porque tenho poucas certezas na vida mas, uma delas é que serei mãe. Tenho 33 anos e sou só. Sou solteira e não vou deixar que o meu desejo dependa de ter ou não um pai para o rebento. Se daqui a três, quatro anos continuar sozinha começo a tratar de colocar o plano em prática.
Até há pouco tempo a lei era discriminatória para com as mulheres solteiras pelo que todo o processo era tratado em clínicas portuguesas mas, a mulher tinha que ir a Espanha concretizar o que por lei só lhe estava disponível além fronteiras. Felizmente, isso mudou e já não terei que ir a Espanha (assim espero!).
Não estou só por opção, acredito mesmo que ninguém prefere estar só por muito que publicite a sua independência egocêntrica mas, não será por querer ser mãe que me vou lançar numa caça furtiva de homens, até porque não tenho feitio ou jeitinho para isso.
Não calhou! Se calhar óptimo aplico o dinheiro no enxoval da criança, do meu filho. Se não calhar, não deixarei que a minha decisão se anule na falta de um homem.
Acho isto bastante simples, não compreendo a curiosidade e não estou disponível para aceitar qualquer julgamento moral ou social acerca desta decisão.

Tenho dito!


Monday Morning



Buster Keaton

domingo, 11 de setembro de 2016

dos Segredos


Não compreendo a aposta da TVI numa nova série da 'Casa dos Segredos'.
Agora, até os juízes dão entrevistas. E, nem um 'domus iustitiae dos segredos de estado' faria sentido. Já não há segredos, há manipulações.






Queridos vizinhos,

lamento.
Isto de ser uma mulher do caraças (já não posso dizer caralho, descobri que tenho familiares a ler-me) é muito bonito e tal mas, também é muito limitador. O que somado ao facto de ser demasiado ecléctica, no que se refere ao meu gosto musical, se reflecte na banda sonora com que vos tenho preenchido os últimos dias.
Bem sei que depois de um Nick Cave esperavam mais Nick Cave mas, a minha frustração por não assistir ao novo filme do Nick Cave é identica à de não poder assistir ao concerto dos The Cure, ao do Aznavour ou ao da Patti Smith, assim como, à de não ter assistido aos sigur rós ou ainda não ter tido oportunidade de assistir ao do Sérgio Godinho com o Jorge Palma (deus lhes dê saúde até eu ter dinheiro!), não ter ido ao Bons Sons onde esteve a Cristina Branco e...tantos, tantas outras frustrações que vós já conheceis.
Culpai a formação musical que me deram na infância, intercalar Mozart e Bethoven com Manzarek não podia ter outro resultado.
Lamento. Lamento muito e aproveito para vos avisar que só hoje soube que o Peter Murphy vai ser nosso vizinho por uma noite.



7h00, manhã de Março

da vossa,
querida vizinha da cave.

A falta de luz cria grandes ilusões.



Buster Keaton

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Não fosse aquilo das photomatons…


Há tempos fiz uma lista, daquelas tontas onde reunimos objetivos de vida. Analisei o meu deve e haver, percebi que a vida ainda me devia muito e assentei o que me faltava.
Filhos, não que o ser mulher o imponha, há mulheres que não pensam nisso eu penso muito. Ir a Machu Picchu, acabar uma licenciatura (já que ando por aí a frequentá-las) conquistar um emprego estável, pagar o apartamento, ter a minha empresa… o costume. O costume mais – tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton e menos casar que considero, cada vez mais, um aborrecimento desnecessário.
Há cerca de 2 meses, entreguei à minha entidade patronal o pré-aviso de rescisão contratual.
Para além de analisar o saldo do que a vida me dá, analiso frequentemente o saldo da conta bancária. Felizmente atingi, novamente, aquele ponto em que posso investir qualquer coisinha sem correr o risco de ficar sem tecto nos meses seguintes.
A opção óbvia seria tirar a carta de condução e comprar um carro, qualquer coisa de quatro rodas que se mexa. Algo simples, estou habituada a viver com pouco e a minha capacidade de investimento chega antes de ter atingido o valor do salário de um deputado da nação. Era a opção óbvia mas, como sou medricas, não distingo a direita da esquerda, tinha um trabalho que mal suportava e uma licenciatura à espera de ser terminada, resolvi apostar na minha qualidade de vida e demiti-me. No mesmo dia olhei-me ao espelho e pensei – Mulher do Caralho! Senti-me orgulhosa. Na manhã seguinte o medo já tinha substituído qualquer réstia de orgulho. Nunca fui boa a gostar de mim, a acreditar em mim.
Recebi o que me era devido e fiquei com uma porta aberta. Espero não ter que voltar, não quero passar a vida a trabalhar num sítio onde me sinto explorada mas, se precisar voltarei, desde que isso me aproxime de concretizar os pontos que assentei na tal lista…
Em Setembro regresso, outra vez, à faculdade e entretanto já tenho outro emprego.
Pensei que seria mais fácil, não contava com a concorrência desleal do IEFP. Pequenos empresários, empresas familiares, grandes empresas, todos recorrem ao IEFP para preencher as vagas e o IEFP fornece-lhes mão-de-obra qualificada pelos programas de emprego ao preço da Uva Mijona. Depois de enviar muitos currículos, passar por muitos processos de recrutamento e entrevistas consegui.
- Consegui! Mulher do Caralho!  - Pensei. Mais uma vez passou-me depressa mas, aproveitei o entusiasmo que a mudança me trouxe para colocar as gavetas em ordem. Encontrei na gaveta das meias, entre os collants com foguetes que guardo para vestir no inverno, a tal lista.
Confesso que já não me lembrava dela, fui invadida pelas habituais nostalgia do tempo e melancolia das coisas, uma série de bonitas manifestações daquelas que todos sentimos mas, como não sabemos descrever traduzimos em palavras caras. Estranhei a ordem dos objectivos traçados e assentados.
Em primeiro lugar - tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton. Já na altura reconhecia a dificuldade que tenho em lidar comigo mesma, com a minha imagem. A verdade é que já sabia que podia ser uma mulher do caralho não fosse aquilo das photomatons. 
Quis abandonar um curso, abandonei. Quis comprar casa, comprei. Quis voltar a estudar, voltei. Quis mudar de trabalho contra a conjuntura e opinião de todos, mudei. Quero ter um filho, pus o dinheiro de lado para quando o dia chegar e já nem preciso ir a Espanha, terei. Gostava de ter coragem de me levantar, dirigir a uma máquina, tirar um retrato, olhá-lo sem recear o resultado e exibi-lo, não tenho.

É, não fosse aquilo das photomatons e seria uma mulher do caralho.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

loop



Sentei-me à cabeceira da mesa da cozinha, de lado para poder encostar-me aos azulejos frescos, as bananas maduras perfumavam o ar.
Dei por mim a ouvir este trabalho do Rodrigo Amarante (Cavalo) em loop. Enquanto isso, um pequeno mosquito rodopiava sobre as letras dos vossos textos, na tela do computador. Perdi-o de vista, ao mosquito, quando me perdi, a mim, num pequeno verso. Já estava numa prosa quando voltei a vê-lo, tinha o dobro do tamanho. Perdi-o outra vez, e mal me tinha refeito do susto quando o zumbido de uma mosca me chegou vindo da fruteira onde repousam as bananas. 
Sabendo que aquela história das moscas viverem apenas 24 horas é um mito, fiquei a pensar qual terá sido a espécie de feitiço que se formou na minha cozinha envolvendo-vos, a vós, ao Rodrigo, às bananas e às moscas...





Curva


Há dias que são uma festa da qual saio curvada.


Muybridge