sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Instalação


Sempre tive muita dificuldade em compreender a arte que só o é na justificação teórica que os autores se sentem obrigados a dar para que ela faça sentido.
A arte dispensa justificação. Chega-se a nós e instala-se sem pedir licença.
Há uns meses plantaram na margem esquerda do Mondego (na minha margem) um pequeno museu vazio. Inauguraram-no com pompa, anunciaram um curador,  um director, um conservador, justificaram despesas e deixaram-no ali vazio.
O espaço tinha intenção de ser aberto e servir os locais e serviu. O cheiro a urina que se sente misturado com o orvalho matinal deixa adivinhar que foi bastante útil.
Passou cerca de um ano desde que plantaram ali o museu vazio, finalmente, parece que preparam a sua primeira 'instalação'. Seja o que for, acho que perderam uma grande oportunidade de fazer verdadeira arte e nem se deram ao trabalho de arranjar uma  justificação interessante para o que fizeram, plantaram um caixote e escreveram Museu no sentido errado.

Perceberia melhor o espaço se a palavra museu estivesse escrita para ser lida de dentro para fora de forma a apelar aos frequentadores que se deixassem interpelar pela vida, pelo quotidiano.




Já os meus vizinhos sem que lhes fosse solicitado e sem necessitarem de justificação, certo dia provocaram-me um belo arrepio quando depois de ter colocado no lixo uma velha passadeira dei com ela estendida nas escadas que ligam a minha rua à rua de baixo. Não precisaram de directores ou curadores e fizeram uma instalação muito bonita.
As pessoas que andam por aí a justificar obras deviam andar mais na rua e deviam encontrar-se com os meus vizinhos...



as fotos para além de más, são minhas.

8 comentários:

  1. Já cada instalação artística que provocaram riso entre mim e as minhas filhas.
    Como por exemplo uma cama e uma cadeira, pregadas na parede, no Museu de Arte Moderna em Barcelona.
    Monumento aos alentejanos??? :)))
    Bfds

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  2. Tenho visto cada instalação!!!! E só dá mesmo para rir! Um monte de cadeiras, camas, prateleiras à entrada de um dos Museus de Lisboa (à cerca de três anos)? Só mesmo para rir!

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    1. é que para isso, não precisavam gastar o dinheiro que gastam com 'artistas' bastava que dessem voz aos comuns mortais.

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  3. Também há o "ar de Fátima" num frasquinho santificado e o ar de Paris, mais brejeiro, em embalagem mais conforme, por isso, esse Museu ao Vazio tem toda a razão para existir.
    Quanto aos seus vizinhos, estime-os, porque nem toda a gente tem essa genica criativa e essa alma poética....

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    1. são uns estetas, os meus vizinhos. Do ponto de vista cromático, a instalação está perfeita.

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  4. que coisa deliciosa: chama-se a isto "make my day" :)

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