quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Não fosse aquilo das photomatons…


Há tempos fiz uma lista, daquelas tontas onde reunimos objetivos de vida. Analisei o meu deve e haver, percebi que a vida ainda me devia muito e assentei o que me faltava.
Filhos, não que o ser mulher o imponha, há mulheres que não pensam nisso eu penso muito. Ir a Machu Picchu, acabar uma licenciatura (já que ando por aí a frequentá-las) conquistar um emprego estável, pagar o apartamento, ter a minha empresa… o costume. O costume mais – tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton e menos casar que considero, cada vez mais, um aborrecimento desnecessário.
Há cerca de 2 meses, entreguei à minha entidade patronal o pré-aviso de rescisão contratual.
Para além de analisar o saldo do que a vida me dá, analiso frequentemente o saldo da conta bancária. Felizmente atingi, novamente, aquele ponto em que posso investir qualquer coisinha sem correr o risco de ficar sem tecto nos meses seguintes.
A opção óbvia seria tirar a carta de condução e comprar um carro, qualquer coisa de quatro rodas que se mexa. Algo simples, estou habituada a viver com pouco e a minha capacidade de investimento chega antes de ter atingido o valor do salário de um deputado da nação. Era a opção óbvia mas, como sou medricas, não distingo a direita da esquerda, tinha um trabalho que mal suportava e uma licenciatura à espera de ser terminada, resolvi apostar na minha qualidade de vida e demiti-me. No mesmo dia olhei-me ao espelho e pensei – Mulher do Caralho! Senti-me orgulhosa. Na manhã seguinte o medo já tinha substituído qualquer réstia de orgulho. Nunca fui boa a gostar de mim, a acreditar em mim.
Recebi o que me era devido e fiquei com uma porta aberta. Espero não ter que voltar, não quero passar a vida a trabalhar num sítio onde me sinto explorada mas, se precisar voltarei, desde que isso me aproxime de concretizar os pontos que assentei na tal lista…
Em Setembro regresso, outra vez, à faculdade e entretanto já tenho outro emprego.
Pensei que seria mais fácil, não contava com a concorrência desleal do IEFP. Pequenos empresários, empresas familiares, grandes empresas, todos recorrem ao IEFP para preencher as vagas e o IEFP fornece-lhes mão-de-obra qualificada pelos programas de emprego ao preço da Uva Mijona. Depois de enviar muitos currículos, passar por muitos processos de recrutamento e entrevistas consegui.
- Consegui! Mulher do Caralho!  - Pensei. Mais uma vez passou-me depressa mas, aproveitei o entusiasmo que a mudança me trouxe para colocar as gavetas em ordem. Encontrei na gaveta das meias, entre os collants com foguetes que guardo para vestir no inverno, a tal lista.
Confesso que já não me lembrava dela, fui invadida pelas habituais nostalgia do tempo e melancolia das coisas, uma série de bonitas manifestações daquelas que todos sentimos mas, como não sabemos descrever traduzimos em palavras caras. Estranhei a ordem dos objectivos traçados e assentados.
Em primeiro lugar - tirar retratos numa máquina automática, uma photomaton. Já na altura reconhecia a dificuldade que tenho em lidar comigo mesma, com a minha imagem. A verdade é que já sabia que podia ser uma mulher do caralho não fosse aquilo das photomatons. 
Quis abandonar um curso, abandonei. Quis comprar casa, comprei. Quis voltar a estudar, voltei. Quis mudar de trabalho contra a conjuntura e opinião de todos, mudei. Quero ter um filho, pus o dinheiro de lado para quando o dia chegar e já nem preciso ir a Espanha, terei. Gostava de ter coragem de me levantar, dirigir a uma máquina, tirar um retrato, olhá-lo sem recear o resultado e exibi-lo, não tenho.

É, não fosse aquilo das photomatons e seria uma mulher do caralho.


12 comentários:

  1. Acho que é na mesma.
    Uma mulher de armas!

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  2. O Régio escreveu: "não sei para onde vou, só sei que não vou por aí". Mas aqui decidiu-se ir mais longe, passar a encruzilhada, deitar fora o conformismo e seguir em frente.
    Bom fim-de-semana

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    1. 'Só vou por onde me levam os meus passos' e sou eu que mando neles.
      Bom fim-de-semana.

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  3. O que é um retrato tirado na photomaton ao pé da força e da coragem que mostras ter? Uma minudência... Sim, que aquilo sai em fotografias bem pequeninas. :)

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