terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Lusco-fusco


Dá-se recompensa a quem melhor me explicar o momento em que o dia se apaga e a noite se acende.





domingo, 4 de dezembro de 2016

Isto da vida não anda nada bonito

Há dias, depois do trabalho acompanhei uma colega à paragem do autocarro o que de resto faço sempre já que saímos pelas 22h00 e ambas nos sentimos mais seguras assim e ao aproximar-nos da paragem percebemos que estava algo no chão, algo ou alguém. Ao chegarmos à paragem percebemos que um idoso estava caído junto ao banco. Ao lado do homem estava um casal a que perguntamos se conheciam o senhor, se tinham chamado alguém... ao que responderam - nós vimos o senhor aí e como não somos de cá fomos ali (outro lado da estrada) perguntar aos taxistas se o conheciam ou se podiam chamar alguém e eles disseram que devia ser dos copos. 
Disseram que devia ser dos copos não chamaram ajuda e eles voltaram para a paragem e colocaram-se ao lado de um corpo que podia até já estar desprovido de espírito como se de um pedaço de papel se tratasse. Disseram que devia ser dos copos e eles voltaram para a sua normalidade intocáveis.
Eu liguei o 112 a minha colega fez o despiste com a linha saúde 24, apareceu gente para ajudar e acompanhei o senhor até que chegasse socorro. O senhor de 64 anos despertou, recordava-se de estar sentado no banco, era só, tinha feito uma cirurgia recentemente e apesar de diabético não comia desde as 17h00.
E se fosse dos copos? Se fosse dos copos merecia ficar ali, jazendo no chão gelado e frio numa noite de Inverno?
E se fosse eu? E se fossem eles ou um familiar? E se fossem vocês?
Deus nos dê saúde que isto não anda nada bonito, é o que vos digo. Deus nos dê saúde que as pessoas andam um bocado esquisitas.


Poder, podia, mas...


A vida podia ter-me colocado numa boa rede de contactos e influências e encaminhar-me para um lugar onde a minha frequência universitária fosse mais do que suficiente para usar o título de Doutora. Ou, fazer-me brotar de um seio tranquilo, desafogado, descendente de várias gerações de Doutores. Podia mas não era a mesma coisa.


(...)
Antão era pastor,
de manta e carapuça;
o açoite do monarca  
ao colectar a comarca,     
fê-lo da Lusa-Atenas doutor, 
doutor de borlas e Murça. 
À viúva alugou a mula ruça!”     

Livro da Marianinha – Aquilino Ribeiro