quarta-feira, 12 de julho de 2017

Antes de bem do que de mal

Diz-se que quando Voltaire estava no leito da morte foi chamado um sacerdote que fez com ele uma oração e o convidou a renegar o Diabo. Convite que Voltaire declinou, disse não ser o momento apropriado para fazer mais um inimigo.

Pascoaes dizia que o ditado popular:Contigo Senhor Diabo antes de bem do que de mal, derivava de uma característica distintiva dos portugueses  que conciliam o culto do divino com o do maléfico. Dizia: Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte menos em Portugal.


Régio também sabia. Dizia no Cântico Negro :'Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém./ Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;/ Mas eu, que nunca principio nem acabo,/  Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.' 

A nossa identidade deriva tanto do religioso como do pagão e até uma mulher simples, dessas vestidas de preto que povoam as nossas aldeias, compreende. Reza o terço às seis da tarde com a Renascença para, logo depois, se livrar, em água corrente, dos incensos que queimaram com sal grosso antes do pôr do sol a fim de afastar qualquer espírito   que possa rondar mesmo que, o espírito, seja apenas uma costureirinha condenada à errância pós-morte. 




Ermo

Acabou a interrogação retórica


Acabou a interrogação retórica, já quase não se usa, não hã quem a respeite e os mais aborrecidos dividem-se em duas facções: os que culpam o facebook e os que culpam o 25 de Abril. 

Couraça de Lisboa, Coimbra. Julho, 2017

Interrogação retórica:
Estratégia retórica ou figura de estilo que consiste na formulação de uma frase interrogativa, dirigida a um destinatário presente ou ausente, sem que se espere obter resposta. Por outras palavras, tratase de uma frase declarativa ou assertiva disfarçada de pergunta, com o objetivo de, por um lado,  modalizar ou atenuar a afirmação pretendida, e por outro, de tornar discurso mais vivo. (Copiei da Infopédia)


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Foi domingo


Foi domingo e acordei com a pele empolada. A vermelhidão e as borbulhas foram aumentando e tomaram conta de mim.
Na farmácia, recusaram vender-me o que quer que fosse - tem que ir ao médico!
Fui, mas fui contrariada. Era domingo e eu tinha comichão podiam ter aproveitado para me vender ao menos um óleo hidratante...
Os sintomas eram fracos mas as salas de espera das urgências têm o dom de deixar qualquer pessoa doente. Senti a tensão baixar enquanto esperava que todos os outros, a quem tinham igualmente colocado uma fita amarela no braço, fossem atendidos. Chamou-me um médico tranquilo sentei-me à sua frente e ele perguntou - Que se passa? Expliquei - É isto. Olhou-me de longe, por cima dos óculos, não mais do que dois segundos e vaticinou - Isso é uma alergia. 
Ordenou-me que saísse enquanto dava ordens para que me fizessem uma medicação.Assim fiz. 
Aguardei. Aguardei. Mais um pouco e chamaram-me. 
Aguardavam-me de agulhas em riste. - Ora vamos lá ver esses bracinhos... Ui! Não vai ser fácil! Não ia mas pareceu. Conseguiu acertar na veia à primeira e vai de enfiar o liquido das seringas lá para dentro. À minha respiração mais sonora a senhora enfermeira descansava-me e dizia que tem que arder, é normal. E, depois das seringas um frasco de soro com anti-alérgico que se me infiltrou grande parte no braço porque afinal aquilo da veia não estava e não era normal que ardesse. 
Com medo de novo fracasso a senhora enfermeira chamou outra senhora enfermeira que me analisou os braços e perguntou - São bailarinas? Expliquei que sim, que as minhas veias são a única parte de mim com ritmo e que não tivesse medo de furar e certificar-se de que acertara - O record está em 12 picadelas. Resolveu o assunto com 2.
Tomei o resto do soro, o médico voltou a chamar. olhou para mim de longe e vaticinou - está muito melhor!-  Estava pior! - Vou passar-lhe uns comprimidos. Daqui a quatro dias se não passar voltas cá mas em principio passa. - Fiquei super descansada. 
Voltei à farmácia e comprei os comprimidos, com receita. 
Continuo vermelha e cheia de bolhas mas a droga é da boa. Dormi umas 10 horas esta noite e esta manhã por cada  meia hora que estou acordada durmo uma. 
Espero não ter de voltar ao médico, muito menos aquele, mas já valeu a pena. Precisava relaxar.



sábado, 24 de junho de 2017

F e i t i ç o s



Ararur - Trevas coração



"Fui cordilheira acima
cajado na mão.
A rasgar a neblina
ofertar fruta e pão.
À deusa mãe natureza,
reza, reza.

Fui de vela acesa.
Feitiços e um sermão.
Um pó misto de malvadeza.
Creia o diabo ou não.
Neste ritual pagão."


de Ângela Maria Santos




ps Gosto!


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Um drama, um horror


Acordei dentro de um caixão. O ar esgotou-se rapidamente.

Olhei o espelho e assustei-me. Não tinha reflexo.

Maria acordou com a sensação de que uma massa viscosa e fria a envolvia, percorrendo-a desde os pés, pressionando-a, sentia-se sufocar. Acendeu a luz, percebeu que a massa era real e aumentava a pressão, sufocou.


ps. pediram-me que escrevesse uma história de terror em duas frases, tarefa para a qual a minha dramática falta de jeito é um horror, como se comprova.




terça-feira, 13 de junho de 2017

Pastorícia e outras coisas...


A Nova Iorque nunca senti sequer o cheiro, não me faz falta conhecê-la para perceber isto, aqui


ps. disponível para visitas guiadas.





 

sábado, 10 de junho de 2017

Procura-se cor


Se tivesse que atribuir uma cor à minha vida seria sépia. As estórias que conto para a colorir não chegam a ter H, são pouco mais do que momentos que não quebram o ciclo.
Sinto-me confortável em sépia, confesso, mas preciso de cor e de Hs.




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Luzidio


Confesso, tenho o nariz luzidio. Mais do que luzidio tenho-o vermelho porque o sol não anda meigo. Não é porque seja tôla, a culpa é do sol.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Perdão, foi sem querer

Fui envolvida no movimento do 'Selinho para blogs em bom', do Caro Sr. Pipoco Mais Salgado, pela Dona Redonda.
Infelizmente quando me apercebi de que tinha sido integrada no grupo dos 'em bom' já tinham passado as 24 horas disponíveis para plantar o belo do selo no Quadro e salvar um par de pandas bebés.
Foi sem querer, estive ocupada. É sabido que prefiro os elefantes mas não quero mal aos pandas, coitadinhos.
Teria sido um gosto plantar aquele selinho de bordados elegantes no Quadro, principalmente agora que também ando numa de reviver os velhos tempos da blogosfera e lancei um giveaway muito fofinho que vos espera no post abaixo e até dispensa sorteios, aproveitem.




domingo, 4 de junho de 2017

Giveaway





Comprei, há dias, estes dois personagens por 1 euro, pensei que estava a fazer um ótimo negócio mas arrependi-me.
Comecei por imaginar que a distraída Lenita, depois de ter lido o 'Olhai os Lírios do Campo', tinha compreendido o apaixonado João com quem casara e vivera apaixonadamente até morrer, velha e feliz com a pele toda encarquilhadinha. Mas depois imaginei que não.
Imaginei que, se calhar, a Lenita era uma flausina apaixonada por outro qualquer e estava só a divertir-se com o pobre João. Ou, se calhar, o João era um Don Juan e dedicava o mesmo livro a todas.
Pior! Se calhar, o João era um mandrião que apesar de o ser conquistou a Lenita. Casaram, tiveram uma dúzia de filhos,  o João meteu-se no álcool, parou de trabalhar e limitava-se a romper  os fundilhos das calças pelas tascas enquanto a Lenita se matava a costurar para fora. O tempo e o álcool levaram o juízo do João que quando chegava a casa distribuía pancada pelos pequenos. Um drama familiar que só terminou quando a Lenita lhe despejou um frasco de estricnina na sopa. O livro veio parar-me às mãos porque a Lenita o vendeu para pagar ao advogado ou um dos doze filhos institucionalizados o tinha consigo quando foi vitima de roubo por parte dos rufias da casa abrigo que lhe espetaram uma naifa na barriga...

Enfim, estes dois estão a dar-me mais trabalho e preocupações do que supus. São vossos!
Levai-os e fazei bom proveito.








sábado, 3 de junho de 2017

Procura-se Cinderelo


Há dias, deixaram-me isto à porta.
Aposto que antes de ser o chinelo velho de alguém que calça para cima de 40 era um belo de um sapato em pele, castanho, daqueles que dá para usar sem meias e combinar com as leggings apertadinhas da namorada nas quais se fazem umas dobrinhas no fundo para mostrar o tornozelo peludo e dar a qualquer cavalheiro o aspeto moderno de quem vai regar a horta.
Ocorreu-me pegar no belo do chinelo e percorrer as portas do prédio à procura do Cinderelo que estaria, certamente, em casa, a sentir frio no pé mas já era tarde e estava cansada pelo que nem lhe toquei. No dia seguinte já tinha desaparecido.
Não sei se foi o Kiko, o gato do prédio, que se aproveitou do alheio desprovido de dono à vista ou se o dono voltou para o recolher, a verdade é que nunca mais o vi.
Não lhe toquei, naquela noite, mas fiquei curiosa acerca da identidade do Borralheiro.
Do Borralheiro e de saber onde foi o baile. Alguém se acusa?




quinta-feira, 1 de junho de 2017

Let's Celebrate

Desconfio que a empresa para a qual trabalho está a exagerar naquela coisa de promover um ambiente de trabalho 'cool' já que pediu aos colaboradores que celebrem o dia da criança comportando-se como uma.
No entanto, como não quero ser a desmancha prazeres que fica de fora e já ando a pé desde as seis da manhã, estou tentada a colaborar.

Faço birra, peço à minha mãe que telefone a dizer que me dói a barriga e fico em casa.




terça-feira, 30 de maio de 2017

'Ossos'

Os dois terços iniciais deste filme foram dos confrontos mais extraordinários que tive com o real ultimamente.
Passa sábado na RTP2.


Ossos, 1997, Pedro Costa



“Nunca escrevo um guião, não tenho ideias de cinema nem tenho imaginação. Creio que não estou na família dos criativos, mas na família dos que preferem a realidade e que essa realidade provoque algo.”
Pedro Costa, aqui



sábado, 27 de maio de 2017

Trocar os dias pelos pés



Catorze pequenas meias para os meus pequenos pés na secção infantil. Um par para cada dia e desenrasco a semana toda, pensei.

Eram simples, tinham umas letras que não me feriam o gosto pelo que nem me dei ao trabalho de as juntar até reparar que as letras, quando juntinhas, correspondem aos dias da semana escritos em inglês. Um dia para cada par.

Percebi que tenho andado a trocar os dias pelos pés e mesmo tendo percebido, o que qualquer miúdo de dez anos me podia ter explicado, ainda não me consegui organizar, por causa das lavagens.

Na terça-feira, enquanto uma senhora me dava porrada no ginásio, a ver se me endireita a coluna, pelas sete da manhã envergava ‘Friday’ nos pés e hoje comecei o dia a caminhar em ‘Monday’.




segunda-feira, 17 de abril de 2017

Escuta (des)activa

Tenho convicção de que as coisas falam sempre duas vezes.
Estou convencida de que comunicam, primeiramente, entre si formando um mundo comum para, depois, comunicarem a uma só voz.

Infelizmente, escutamo-las pouco.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Estar


Pessoas que se limitam a estar fazem-me tanta falta como um cadáver à realização de uma missa de corpo presente.





quarta-feira, 5 de abril de 2017

Do tempo das lâmpadas incandescentes coloridas

Nunca me considerei muito enquadrada nesta época principalmente pela dificuldade ou aselhice que tenho em lidar com máquinas cheias de botões e aplicações cheias de códigos. No entanto, eis que chega o dia em que me vejo na necessidade de acender um candeeiro a petróleo, derivado a coisas, e percebo que isso também não é do meu tempo.
Acho que me encaixo algures pelo meio, no tempo das lâmpadas incandescentes coloridas. Os telefones ainda tinham fios, a TV já era a cores mas só tinha 4 canais, os computadores ainda ocupavam um armário da sala de jantar, o Kurt Cobain era lenda, eu ouvia  Madrugada, dEUS, Bush... e quando faltava a luz três dias seguidos usávamos velas.






terça-feira, 4 de abril de 2017

sábado, 25 de março de 2017

Modorra


Tenho dormido mal.
Sempre que acordo, procuro o telemóvel para ver as horas. Não quero perdê-las. Sempre que vejo as horas, procuro nas redes sociais pelos títulos dos jornais não vá o mundo ter morrido enquanto dormia. Sinto-o enfermo, ultimamente. 
Tenho tanto que fazer e o mundo tanto para resolver e mesmo assim vêm uns tipos e roubam-me uma hora. Está mal!

Os próximos dias serão difíceis, a modorra será maior do que a habitual.

Durmam bem!


(Not So) Suddenly




The Earth Dies Screaming, 1964

terça-feira, 21 de março de 2017

Luz


Luz, sombra.
Definição de espaços. Preenchimento de vazios.

The Turin Horse by Béla Tarr 



domingo, 19 de março de 2017

Percepção temporal manchada


Entalei um dedo no guarda-fatos do meu quarto, antes do Natal. Fiquei com uma mancha preta na unha que fez sobressaltar a minha mãe na noite da consoada. Pensei que ia desaparecer depressa, mas não.
Habituei-me a ela. Raras são as vezes em que a vejo na azafama dos dias. Hoje dediquei-lhe atenção, avançou bastante acompanhando o crescimento da unha mas, deve demorar mais um mês a desaparecer. De repente, apesar dos dias corridos e das horas curtas, apercebi-me de que o tempo avança mais devagar do que a percepção que tenho dele.



note to self: observa-te!




domingo, 12 de março de 2017

Foi sábado

Gargalhou como se ouvisse musica, como se fosse a única, a última. Subiu a construção como se fosse sólida, tropeçou no céu como se fosse bêbado e flutuou no ar como se fosse pássaro.
Agonizou no passeio publico como se fosse a próxima. Morreu em contramão atrapalhando o tráfego, como se fosse máquina.



Cristina Branco canta Chico Buarque

quarta-feira, 8 de março de 2017


- Avó! Eu não sabia que havia meninas pobres.
- Não!?
- Eu sabia que havia pobres mas, não sabia que os pobres eram meninas. - Concluiu o pequeno que seguia de mão dada à avó enlutada. Aparentava ter pouco mais de quatro anos.
Demasiado precoce para tal tomada de consciência, que coincidência, o dia... pensei quando regressava a casa ao fim de mais um dia em que me arrastei de passagem.
Trazia um cravo na mão que agradeci cordialmente, fui incapaz de erguer a voz ou fazer campanha pelas mulheres que fizeram o mesmo mas a um patrão que antes de as contratar questionou quais eram os seus planos para o futuro - E filhos? Tem? Para quando? Estou cansada.

Quero dormir, dormir... como uma menina que se esconde das sombras e do futuro em baixo da máquina de costura da mãe, que enrola o corpo sobre si e se aconchega esperando que as sombras não lhe cheguem ou que uma voz familiar a chame para a encaminhar a um ninho de lençóis brancos e perfume de sabão.
Dormir. Dormir e esquecer que as sombras nos encontram sempre, mesmo em baixo dos lençóis.






terça-feira, 7 de março de 2017

Se eu quisesse, enlouquecia


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

sexta-feira, 3 de março de 2017

assombro

'A trama é tão assombrosa que facilmente esquecemos a qualidade da escrita' era a frase que exibia o livro que comprei, depois de ter gasto trinta minutos da minha hora de almoço a olhar para a estante de literatura fantástica com o ar de um burro que observa um palácio.

Ainda não encontrei o assombro da trama mas já quero muito esquecer a qualidade da escrita e não está a ser tão fácil como anunciavam.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lodo


« Ela cada vez andava mais desfalecida, pendia de cansaço, ofegava; mas procurava iludir os desvelos da família com um vigor que não tinha, como sucede ao náufrago quase a aferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve lutar mais tempo, se deixar-se engolir nas voragens do oceano. Gravitaria ela em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impelia para longe? Pobre flor, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma ilusão quanto a sua alma ingénua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali num volteio feérico, febril, esconder-lhe-á o lodo de um charco estagnado que a há de engolir para sempre? »


in 'As Asas Brancas', Teófilo Braga
aqui

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Bloqueio


Eu queria saber contar como a senhora loura, baixa, magra e de aparência frágil sorria para a sardonisca que estava no muro à entrada da ponte, como se o bichinho lhe respondesse às perguntas que lhe lançava - então está solinho? Estás contente? levando-lhe ao rosto a alegria das leggings coloridas.

 Os outros esperavam que matasse trinta pessoas, com balas.

Ambos estamos desiludidos.







sábado, 28 de janeiro de 2017

Too soon


Mostraram-me uma versão retalhada disto num domingo de manhã e perguntaram-me o que tinha a dizer, fiquei calada, era cedo.
É a terceira vez que vejo a versão completa, desde esse dia, continua cedo.




Le Ballon Rouge, Albert Lamorisse, 1956

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Torpor

Tememos que o torpor que nos afecta o corpo e nos faz calcular a hora do despertar em função da possibilidade de acordar com as mãos fechadas e só as conseguir abrir 15 minutos depois nos afecte por dentro quando no balanço do dia percebemos que aquilo com que de mais interessante nos cruzamos foi: duas gaivotas a disputar uma velha garrafa de plástico que jazia no rio. Coitadinhas nem sequer consegui erguer os braços para as enxotar xô minhas tontas isso mata-vos.
Mas depois há outro dia voltamos a atravessar a ponte e quando passamos sob um enorme bando de gaivotas a pontilhar o céu de um azul perfeito e pintado por nuvens em harmonia perfeita o único pensamento que nos vem à cabeça é Deus queira nenhuma se lembre de obrar cá para baixo. Percebemos então que não podemos estar assim tão entorpecidos. Obrar não é uma palavra corriqueira não dizemos ou pensamos ai mas que vontadinha de obrar me deu agora. Quando o nosso cérebro escolhe obrar percebemos que se mantém activo e que o que não lhe falta é criatividade. Pudesse eu dizer o mesmo das mãos... das mãos e da preguiça que me levou as virgulas todas deste texto. Leiam em voz alta.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Born to create drama






Note to self: Manter o propósito

Viver é uma experiência dramática

Hesitei, quando entrei no autocarro. Haviam idosos de pé e lugares vazios, desde que aprovaram a lei que obriga a conceder-lhes lugar e prioridade, hesito sempre.
Os mais velhos são aventureiros gostam de arriscar ou então já nem sentem o risco e preferem ir ali, de pé, aos solavancos. É uma opção deles. Eu pergunto - vai sentar? - eles dizem que não e eu que tenho uma coluna com mais 40 anos do que eu, diz o senhor doutor, sento-me. Na paragem seguinte sou olhada de lado pelos passageiros que entram e pensam aquela está a ocupar o lugar de um velho. Portanto hesitei. Hesitei mas sentei-me na mesma porque estava cansada. Atrás de mim as senhoras que regressavam do trabalho para onde se arrastam diariamente à espera da reforma, rostos conhecidos das viagens repetidas, comentavam:
- Matou o filho?
- Sim! Mas foi um acidente. O filho estava a bater-lhe e ele para se defender, empurrou-o. O rapaz caiu e morreu.
- Coitadinho! aquele filho tratava-o tão mal. Sofreu tanto aquele senhor...
Preparei-me  para opinar sem hesitação alguma. Ninguém merece! Quando me voltei para trás uma delas disse:
- E depois adormeci. Ando mesmo cansada, já não consigo chegar à segunda novela. 




note to self: Viver é uma experiência dramática. Não esquecer!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vistas bem, as coisas...

Regressei numa sexta-feira 13.
Apanhei o comboio contrariando as mais intrincadas superstições e não me faltou coragem. Senti-me bastante segura até que na estação o senhor de fato cinzento e óculos na ponta do nariz que me vendeu o bilhete me deselogiou de forma categórica.

- Tem menos de 26 anos?- Perguntou.
- Não- Disse eu com o sorriso sincero de quem esquece que tem os dentes tortos.
- Não parece. - Disse ele sorrindo também.
- Tenho 33, já não tenho direito a descontos. - Acrescentei, prolongando a troca de palavras circunstanciais com aquela figura aparentemente simpática.
- Ah, eu tenho que trocar de óculos sabe?- Esclareceu, ele.

Ou seja, eu não sou aparentemente jovem ele é que vê mal.

Não prolonguei a conversa porque tinha que apanhar o comboio, perdê-lo seria alimentar as superstições da já mal afamada sexta, mas sendo que acabei de gastar um mês e uma semana de salário em óculos arrependo-me de não ter aconselhado o senhor a não cometer essa despesa supérflua. Para quê trocar os óculos se está a ver mais bonito e mais jovem, com a graduação actual?