segunda-feira, 17 de abril de 2017

Escuta (des)activa

Tenho convicção de que as coisas falam sempre duas vezes.
Estou convencida de que comunicam, primeiramente, entre si formando um mundo comum para, depois, comunicarem a uma só voz.

Infelizmente, escutamo-las pouco.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Estar


Pessoas que se limitam a estar fazem-me tanta falta como um cadáver à realização de uma missa de corpo presente.





quarta-feira, 5 de abril de 2017

Do tempo das lâmpadas incandescentes coloridas

Nunca me considerei muito enquadrada nesta época principalmente pela dificuldade ou aselhice que tenho em lidar com máquinas cheias de botões e aplicações cheias de códigos. No entanto, eis que chega o dia em que me vejo na necessidade de acender um candeeiro a petróleo, derivado a coisas, e percebo que isso também não é do meu tempo.
Acho que me encaixo algures pelo meio, no tempo das lâmpadas incandescentes coloridas. Os telefones ainda tinham fios, a TV já era a cores mas só tinha 4 canais, os computadores ainda ocupavam um armário da sala de jantar, o Kurt Cobain era lenda, eu ouvia  Madrugada, dEUS, Bush... e quando faltava a luz três dias seguidos usávamos velas.






terça-feira, 4 de abril de 2017

sábado, 25 de março de 2017

Modorra


Tenho dormido mal.
Sempre que acordo, procuro o telemóvel para ver as horas. Não quero perdê-las. Sempre que vejo as horas, procuro nas redes sociais pelos títulos dos jornais não vá o mundo ter morrido enquanto dormia. Sinto-o enfermo, ultimamente. 
Tenho tanto que fazer e o mundo tanto para resolver e mesmo assim vêm uns tipos e roubam-me uma hora. Está mal!

Os próximos dias serão difíceis, a modorra será maior do que a habitual.

Durmam bem!


(Not So) Suddenly




The Earth Dies Screaming, 1964

terça-feira, 21 de março de 2017

Luz


Luz, sombra.
Definição de espaços. Preenchimento de vazios.

The Turin Horse by Béla Tarr 



domingo, 19 de março de 2017

Percepção temporal manchada


Entalei um dedo no guarda-fatos do meu quarto, antes do Natal. Fiquei com uma mancha preta na unha que fez sobressaltar a minha mãe na noite da consoada. Pensei que ia desaparecer depressa, mas não.
Habituei-me a ela. Raras são as vezes em que a vejo na azafama dos dias. Hoje dediquei-lhe atenção, avançou bastante acompanhando o crescimento da unha mas, deve demorar mais um mês a desaparecer. De repente, apesar dos dias corridos e das horas curtas, apercebi-me de que o tempo avança mais devagar do que a percepção que tenho dele.



note to self: observa-te!




domingo, 12 de março de 2017

Foi sábado

Gargalhou como se ouvisse musica, como se fosse a única, a última. Subiu a construção como se fosse sólida, tropeçou no céu como se fosse bêbado e flutuou no ar como se fosse pássaro.
Agonizou no passeio publico como se fosse a próxima. Morreu em contramão atrapalhando o tráfego, como se fosse máquina.



Cristina Branco canta Chico Buarque

quarta-feira, 8 de março de 2017


- Avó! Eu não sabia que havia meninas pobres.
- Não!?
- Eu sabia que havia pobres mas, não sabia que os pobres eram meninas. - Concluiu o pequeno que seguia de mão dada à avó enlutada. Aparentava ter pouco mais de quatro anos.
Demasiado precoce para tal tomada de consciência, que coincidência, o dia... pensei quando regressava a casa ao fim de mais um dia em que me arrastei de passagem.
Trazia um cravo na mão que agradeci cordialmente, fui incapaz de erguer a voz ou fazer campanha pelas mulheres que fizeram o mesmo mas a um patrão que antes de as contratar questionou quais eram os seus planos para o futuro - E filhos? Tem? Para quando? Estou cansada.

Quero dormir, dormir... como uma menina que se esconde das sombras e do futuro em baixo da máquina de costura da mãe, que enrola o corpo sobre si e se aconchega esperando que as sombras não lhe cheguem ou que uma voz familiar a chame para a encaminhar a um ninho de lençóis brancos e perfume de sabão.
Dormir. Dormir e esquecer que as sombras nos encontram sempre, mesmo em baixo dos lençóis.






terça-feira, 7 de março de 2017

Se eu quisesse, enlouquecia


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

sexta-feira, 3 de março de 2017

assombro

'A trama é tão assombrosa que facilmente esquecemos a qualidade da escrita' era a frase que exibia o livro que comprei, depois de ter gasto trinta minutos da minha hora de almoço a olhar para a estante de literatura fantástica com o ar de um burro que observa um palácio.

Ainda não encontrei o assombro da trama mas já quero muito esquecer a qualidade da escrita e não está a ser tão fácil como anunciavam.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lodo


« Ela cada vez andava mais desfalecida, pendia de cansaço, ofegava; mas procurava iludir os desvelos da família com um vigor que não tinha, como sucede ao náufrago quase a aferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve lutar mais tempo, se deixar-se engolir nas voragens do oceano. Gravitaria ela em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impelia para longe? Pobre flor, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma ilusão quanto a sua alma ingénua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali num volteio feérico, febril, esconder-lhe-á o lodo de um charco estagnado que a há de engolir para sempre? »


in 'As Asas Brancas', Teófilo Braga
aqui

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Bloqueio


Eu queria saber contar como a senhora loura, baixa, magra e de aparência frágil sorria para a sardonisca que estava no muro à entrada da ponte, como se o bichinho lhe respondesse às perguntas que lhe lançava - então está solinho? Estás contente? levando-lhe ao rosto a alegria das leggings coloridas.

 Os outros esperavam que matasse trinta pessoas, com balas.

Ambos estamos desiludidos.







sábado, 28 de janeiro de 2017

Too soon


Mostraram-me uma versão retalhada disto num domingo de manhã e perguntaram-me o que tinha a dizer, fiquei calada, era cedo.
É a terceira vez que vejo a versão completa, desde esse dia, continua cedo.




Le Ballon Rouge, Albert Lamorisse, 1956

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Torpor

Tememos que o torpor que nos afecta o corpo e nos faz calcular a hora do despertar em função da possibilidade de acordar com as mãos fechadas e só as conseguir abrir 15 minutos depois nos afecte por dentro quando no balanço do dia percebemos que aquilo com que de mais interessante nos cruzamos foi: duas gaivotas a disputar uma velha garrafa de plástico que jazia no rio. Coitadinhas nem sequer consegui erguer os braços para as enxotar xô minhas tontas isso mata-vos.
Mas depois há outro dia voltamos a atravessar a ponte e quando passamos sob um enorme bando de gaivotas a pontilhar o céu de um azul perfeito e pintado por nuvens numa harmonia perfeita o único pensamento que nos vem à cabeça é Deus queira nenhuma se lembre de obrar cá para baixo. Percebemos então que não podemos estar assim tão entorpecidos. Obrar não é uma palavra corriqueira não dizemos ou pensamos ai mas que vontadinha de obrar me deu agora. Quando o nosso cérebro escolhe obrar percebemos que se mantém activo e que o que não lhe falta é criatividade. Pudesse eu dizer o mesmo das mãos... das mãos e da preguiça que me levou as virgulas todas deste texto. Leiam em voz alta.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Born to create drama






Note to self: Manter o propósito

Viver é uma experiência dramática

Hesitei, quando entrei no autocarro. Haviam idosos de pé e lugares vazios, desde que aprovaram a lei que obriga a conceder-lhes lugar e prioridade, hesito sempre.
Os mais velhos são aventureiros gostam de arriscar ou então já nem sentem o risco e preferem ir ali, de pé, aos solavancos. É uma opção deles. Eu pergunto - vai sentar? - eles dizem que não e eu que tenho uma coluna com mais 40 anos do que eu, diz o senhor doutor, sento-me. Na paragem seguinte sou olhada de lado pelos passageiros que entram e pensam aquela está a ocupar o lugar de um velho. Portanto hesitei. Hesitei mas sentei-me na mesma porque estava cansada. Atrás de mim as senhoras que regressavam do trabalho para onde se arrastam diariamente à espera da reforma, rostos conhecidos das viagens repetidas, comentavam:
- Matou o filho?
- Sim! Mas foi um acidente. O filho estava a bater-lhe e ele para se defender, empurrou-o. O rapaz caiu e morreu.
- Coitadinho! aquele filho tratava-o tão mal. Sofreu tanto aquele senhor...
Preparei-me  para opinar sem hesitação alguma. Ninguém merece! Quando me voltei para trás uma delas disse:
- E depois adormeci. Ando mesmo cansada, já não consigo chegar à segunda novela. 




note to self: Viver é uma experiência dramática. Não esquecer!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vistas bem, as coisas...

Regressei numa sexta-feira 13.
Apanhei o comboio contrariando as mais intrincadas superstições e não me faltou coragem. Senti-me bastante segura até que na estação o senhor de fato cinzento e óculos na ponta do nariz que me vendeu o bilhete me deselogiou de forma categórica.

- Tem menos de 26 anos?- Perguntou.
- Não- Disse eu com o sorriso sincero de quem esquece que tem os dentes tortos.
- Não parece. - Disse ele sorrindo também.
- Tenho 33, já não tenho direito a descontos. - Acrescentei, prolongando a troca de palavras circunstanciais com aquela figura aparentemente simpática.
- Ah, eu tenho que trocar de óculos sabe?- Esclareceu, ele.

Ou seja, eu não sou aparentemente jovem ele é que vê mal.

Não prolonguei a conversa porque tinha que apanhar o comboio, perdê-lo seria alimentar as superstições da já mal afamada sexta, mas sendo que acabei de gastar um mês e uma semana de salário em óculos arrependo-me de não ter aconselhado o senhor a não cometer essa despesa supérflua. Para quê trocar os óculos se está a ver mais bonito e mais jovem, com a graduação actual?