sábado, 28 de janeiro de 2017

Too soon


Mostraram-me uma versão retalhada disto num domingo de manhã e perguntaram-me o que tinha a dizer, fiquei calada, era cedo.
É a terceira vez que vejo a versão completa, desde esse dia, continua cedo.




Le Ballon Rouge, Albert Lamorisse, 1956

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Torpor

Tememos que o torpor que nos afecta o corpo e nos faz calcular a hora do despertar em função da possibilidade de acordar com as mãos fechadas e só as conseguir abrir 15 minutos depois nos afecte por dentro quando no balanço do dia percebemos que aquilo com que de mais interessante nos cruzamos foi: duas gaivotas a disputar uma velha garrafa de plástico que jazia no rio. Coitadinhas nem sequer consegui erguer os braços para as enxotar xô minhas tontas isso mata-vos.
Mas depois há outro dia voltamos a atravessar a ponte e quando passamos sob um enorme bando de gaivotas a pontilhar o céu de um azul perfeito e pintado por nuvens em harmonia perfeita o único pensamento que nos vem à cabeça é Deus queira nenhuma se lembre de obrar cá para baixo. Percebemos então que não podemos estar assim tão entorpecidos. Obrar não é uma palavra corriqueira não dizemos ou pensamos ai mas que vontadinha de obrar me deu agora. Quando o nosso cérebro escolhe obrar percebemos que se mantém activo e que o que não lhe falta é criatividade. Pudesse eu dizer o mesmo das mãos... das mãos e da preguiça que me levou as virgulas todas deste texto. Leiam em voz alta.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Born to create drama






Note to self: Manter o propósito

Viver é uma experiência dramática

Hesitei, quando entrei no autocarro. Haviam idosos de pé e lugares vazios, desde que aprovaram a lei que obriga a conceder-lhes lugar e prioridade, hesito sempre.
Os mais velhos são aventureiros gostam de arriscar ou então já nem sentem o risco e preferem ir ali, de pé, aos solavancos. É uma opção deles. Eu pergunto - vai sentar? - eles dizem que não e eu que tenho uma coluna com mais 40 anos do que eu, diz o senhor doutor, sento-me. Na paragem seguinte sou olhada de lado pelos passageiros que entram e pensam aquela está a ocupar o lugar de um velho. Portanto hesitei. Hesitei mas sentei-me na mesma porque estava cansada. Atrás de mim as senhoras que regressavam do trabalho para onde se arrastam diariamente à espera da reforma, rostos conhecidos das viagens repetidas, comentavam:
- Matou o filho?
- Sim! Mas foi um acidente. O filho estava a bater-lhe e ele para se defender, empurrou-o. O rapaz caiu e morreu.
- Coitadinho! aquele filho tratava-o tão mal. Sofreu tanto aquele senhor...
Preparei-me  para opinar sem hesitação alguma. Ninguém merece! Quando me voltei para trás uma delas disse:
- E depois adormeci. Ando mesmo cansada, já não consigo chegar à segunda novela. 




note to self: Viver é uma experiência dramática. Não esquecer!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vistas bem, as coisas...

Regressei numa sexta-feira 13.
Apanhei o comboio contrariando as mais intrincadas superstições e não me faltou coragem. Senti-me bastante segura até que na estação o senhor de fato cinzento e óculos na ponta do nariz que me vendeu o bilhete me deselogiou de forma categórica.

- Tem menos de 26 anos?- Perguntou.
- Não- Disse eu com o sorriso sincero de quem esquece que tem os dentes tortos.
- Não parece. - Disse ele sorrindo também.
- Tenho 33, já não tenho direito a descontos. - Acrescentei, prolongando a troca de palavras circunstanciais com aquela figura aparentemente simpática.
- Ah, eu tenho que trocar de óculos sabe?- Esclareceu, ele.

Ou seja, eu não sou aparentemente jovem ele é que vê mal.

Não prolonguei a conversa porque tinha que apanhar o comboio, perdê-lo seria alimentar as superstições da já mal afamada sexta, mas sendo que acabei de gastar um mês e uma semana de salário em óculos arrependo-me de não ter aconselhado o senhor a não cometer essa despesa supérflua. Para quê trocar os óculos se está a ver mais bonito e mais jovem, com a graduação actual?