quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Viver é uma experiência dramática

Hesitei, quando entrei no autocarro. Haviam idosos de pé e lugares vazios, desde que aprovaram a lei que obriga a conceder-lhes lugar e prioridade, hesito sempre.
Os mais velhos são aventureiros gostam de arriscar ou então já nem sentem o risco e preferem ir ali, de pé, aos solavancos. É uma opção deles. Eu pergunto - vai sentar? - eles dizem que não e eu que tenho uma coluna com mais 40 anos do que eu, diz o senhor doutor, sento-me. Na paragem seguinte sou olhada de lado pelos passageiros que entram e pensam aquela está a ocupar o lugar de um velho. Portanto hesitei. Hesitei mas sentei-me na mesma porque estava cansada. Atrás de mim as senhoras que regressavam do trabalho para onde se arrastam diariamente à espera da reforma, rostos conhecidos das viagens repetidas, comentavam:
- Matou o filho?
- Sim! Mas foi um acidente. O filho estava a bater-lhe e ele para se defender, empurrou-o. O rapaz caiu e morreu.
- Coitadinho! aquele filho tratava-o tão mal. Sofreu tanto aquele senhor...
Preparei-me  para opinar sem hesitação alguma. Ninguém merece! Quando me voltei para trás uma delas disse:
- E depois adormeci. Ando mesmo cansada, já não consigo chegar à segunda novela. 




note to self: Viver é uma experiência dramática. Não esquecer!

6 comentários:

  1. tinha muitas saudades de te ler assim :)
    muito bom

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  2. Desde que saiu a lei que nos obriga a conceder-lhes lugar, faço-lhes o mesmo que já fazia com as velhotas na rua: mesmo que não quisessem atravessar, ajudava-as a atravessar à força eheheh.
    Agora quando os/as vejo no autocarro, não me sento porque sei que a seguir vem logo um embirrar por não lhe dar o lugar. Passo por eles e dou-lhes tamanho encontrão, que eles sentam-se mesmo que não queiram eheheheh.

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