segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lodo


« Ela cada vez andava mais desfalecida, pendia de cansaço, ofegava; mas procurava iludir os desvelos da família com um vigor que não tinha, como sucede ao náufrago quase a aferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve lutar mais tempo, se deixar-se engolir nas voragens do oceano. Gravitaria ela em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impelia para longe? Pobre flor, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma ilusão quanto a sua alma ingénua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali num volteio feérico, febril, esconder-lhe-á o lodo de um charco estagnado que a há de engolir para sempre? »


in 'As Asas Brancas', Teófilo Braga
aqui

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Bloqueio


Eu queria saber contar como a senhora loura, baixa, magra e de aparência frágil sorria para a sardonisca que estava no muro à entrada da ponte, como se o bichinho lhe respondesse às perguntas que lhe lançava - então está solinho? Estás contente? levando-lhe ao rosto a alegria das leggings coloridas.

 Os outros esperavam que matasse trinta pessoas, com balas.

Ambos estamos desiludidos.