terça-feira, 7 de março de 2017

Se eu quisesse, enlouquecia


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

4 comentários:

  1. Respostas
    1. sim, tão estuporada que nem se deixa escrever...a parva.

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  2. Muito bom :)

    Enlouquecer, assim em desordem, e voltar é bom.

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  3. Sim, voltar é bom principalmente se a ausência não foi inócua...

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