terça-feira, 17 de outubro de 2017

Voluntários

Há dias, estava em casa da minha mãe, no norte, quando a sirene dos bombeiros locais se fez ouvir. A minha mãe olhou para a porta do quarto do meu irmão mais novo, que descansava depois de ter trabalhado toda a noite no seu emprego e desabafou:
-Deus queira que ele não ouça. - depois ergueu a cabeça, apontando com o queixo na direcção da morada do meu irmão mais velho e concluiu:
- E que o outro também não ouça.
Nem eu nem ela os chamamos. 

São muito tocantes as imagens de pessoas preocupadas com familiares incontactáveis que correm perigo porque foram surpreendidos por uma qualquer tragédia. Não são situações de todo desconhecidas dos familiares dos voluntários que não sendo surpreendidos por tragédias saem de casa a correr na sua direcção a qualquer hora, e usam as férias e as folgas para servir as corporações, colocando-se em risco, ficando à mercê das ordens e disposições de organizações e políticos cuja incompetência já está devidamente relatada mas que apesar de incompetents são profissionais (com remuneração, direitos, protecção social adequada, roupinha e botas novas para aparecer na TV ...).
Admiro todo o tipo de voluntáriado, principalmente o dos que se arriscam em prol dos outros mas compreendo o voluntariado como complemento. No domingo passado, tido como um dia negro da nossa história, estavam cerca de 6000 mil operacionais no terreno, alguém parou para se perguntar quantos deles eram voluntários? Qual é a percentagem de voluntários no combate aos fogos?
Não coloco em causa o trabalho dos bombeiros voluntários que conheço, agradeço e admiro mas acho que há homens dedicados que já têm alguma formação que vão adquirindo nos seus tempos livres para aplicar também nos tempos livres ( ou deixando para trás as suas obrigações) a quem devia ser dada a oportunidade de fazer o trabalho que gostam e para o qual estão vocacionados de forma profissional. Nós precisamos deles enquanto profissionais.

Nestes momentos surgem sempre relatos injustos dos que dizem da boca para fora 'e nem um bombeiro passou aqui' ou 'e os bombeiros andaram ali e não quiseram vir aqui'. Eu menosprezo porque não podem ser reflectidos e estão incorrectamente direccionados, deviam ser dirigidos a quem coordena.
Em Portugal o socorro faz-se maioritariamente por voluntários pelo que quem não se inscreve como tal ou não exige dos responsáveis políticos que alterem essa situação, se acha que os bombeiros são poucos, a única coisa que pode fazer é ficar calado. 

Estes também são tempos de mobilização via redes sociais e corre por aí uma 'convocatória' para uma marcha silenciosa contra os incêndios. Confesso que não percebo muito bem o sentido disso. Eu contra os incêndios sempre fui e sou-o por princípio, acho que tirando as quatro ou cinco dezenas de criminosos maioritariamente em prisão preventiva que praticam o acto incendiário todos somos contra. Para mim faria mais sentido uma reflexão concreta acerca do combate e prevenção dos incêndios não só acerca do voluntariado que motivou este post mas também.


2 comentários:

  1. Para Tétisq:
    Entendo bem as suas palavras, mas parece-me que o Senhor Presidente da Liga dos Bombeiros também tem um problema político de "reconhecimento". Fala, fala, mas não diz como se pode resolver o que muitos particulares - ausentes - desprezam.
    Considero que o mundo dos voluntários é muito amplo. Pessoalmente tenho algumas dúvidas, por contactos directos com pessoas que integraram corporações, sobre a idoneidade e preparação das pessoas em causa. Não lhes reconhecia nem preparação humana,cívica, moral nem de literacia. Terá sida, certamente, uma situação limite. Reconheço, mas ficou-me a preocupação quando vi a "criatura" junto de uma urgência de hospital. Só pedi, para não me acudir a mim !

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    1. Olá,
      Eu não duvido do trabalho dos voluntários. Há muito que estamos entregues a eles. O INEM existe nos grandes centros mas não chega à maior parte do território nacional. Quanto aos responsaveis nomeadamente o referido acho que o problema é politico, há muitos tachos por aí assustam-me mais do que a boa vontade dos voluntários.

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