quinta-feira, 15 de novembro de 2018

E quando perdemos o sono e somos surpreendidos por algo que fizemos na TV?

Quando perdemos o sono e somos surpreendidos por algo que fizemos a passar na TV sabemos que não é nessa noite que o vamos encontrar.
'A Costureirinha' resultado do curso de Cinemalogia VI promovido pelo CEC (centro de estudos cinematográficos da UC) e pela Uab passou esta madrugada no programa Cinemax da RTP2.
Sou espetadora assídua do programa mas nem sempre chego a horas. Ontem, quando comecei a ver o programa já estavam a apresentar o filme do Super9 Festival Mobile, quando vi o que se seguia fiquei aos pulinhos em frente à televisão e esqueci-me de gravar. De qualquer forma, o programa pode ser revisto por quem tiver oportunidade de voltar atrás na box, repete na madrugada de domingo para segunda-feira, está disponível no RTP play e a curta estará na programação dos Caminhos do Cinema Português como esteve já este mês  no festival Vista Curta do Cine Clube de Viseu e no Ymotion promovido pelo município de Famalicão.

Consegui tirar uma foto

Dei-lhe o título de 'A Costureirinha' e imaginei que seria provisório até perceber que apesar da aparente simplicidade na sua polissemia reside a desconstrução do seu mote principal.
'A Costureirinha' pode ser uma de três personagens. A mãe, Ermelinda (Sandra José), viúva, costureira da aldeia. A filha, Maria (Júlia) que herda como alcunha a profissão da mãe como acontecia nos meios pequenos onde se desejaria para ela que seguisse o mesmo mester. E, a 'Costureirinha', lenda, que se faz presente através da filha que diz vê-la. 
Queria no essencial que entrássemos na casa desta família e acompanhássemos alguns momentos da sua vida e a forma como a presença imaterial d'A Costureirinha influenciava o dia-a-dia da família e tolhia as suas relações. Saindo, depois, pelo mesmo plano.
Claro que uma estória nunca tem uma única dimensão, vive também das suas subcamadas.
Tudo está colocado num contexto socioeconómico pobre do final dos anos 50. Uma mulher, sozinha, com uma criança não tinha perspetiva de mudança ou evolução daí Ermelinda aparecer muitas vezes perdida na repetição dos gestos e tarefas do seu trabalho, com o som da máquina também repetitivo em fundo e a cantarolar os 'Ternos' ('cantareu' nortenho em que os versos são repetido 3 vezes) de forma automática para resistir ao cansaço e espantar a preocupação de estar a perder a filha para o desconhecido ou para a loucura. A filha, apesar da sua ingenuidade, sabe bem o que não quer para si e nunca deixa perceber se de facto vê um espírito, cria uma diversão ou usa a lenda para dar um abanão à mãe.
A reação à possível presença de um espírito naquela casa não podia ser outra senão a tão característica dos portugueses que na opinião do Pascoaes é única. O Pascoaes achava que nos distinguimos dos restantes povos europeus pela diplomacia que mantemos com Deus e com o Diabo, o sagrado e o profano. Não sei se porque os países mais a norte com a necessidade de ler os textos sagrados a que o protestantismo obrigava tendo eliminado o analfabetismo mais cedo eliminaram alguns rituais populares ficando mais próximos de Deus do que do Diabo. Mas sei que os portugueses quando sentem a sua segurança ameaçada rezam o terço e a seguir, pelo sim e pelo não, vão à bruxa.
Como a ideia partiu de mim os colegas deixaram-me a tarefa de tratar da direcção de arte e do guarda-roupa. O CEC ajudou-me conseguindo uma casa de soalho periclitante e alguns móveis o resto deixa-me muito orgulhosa por ter sabido beber do meio impregnado de etnografia em que cresci, que me fez enveredar pela história enquanto formação académica e me faz ter esta vontade de contar factos, estórias e história através das pequenas coisas quotidianas. 

O curso de Cinemalogia 6 foi realizado no âmbito da XXII edição do Festival Caminhos do Cinema Português, que se juntou à Universidade Aberta e à Semana Cultural da Universidade de Coimbra com o mote 'Quem somos?'. Frequentaram-no um conjunto eclético de formandos cujo trabalho resultou nesta curta-metragem. Um trabalho de escola, sem orçamento, com os problemas que qualquer trabalho realizado nessas condições teria mas muito interessante e do qual me orgulho bastante. 
Somos essencialmente memória e assim sendo o cinema assume um papel importante na nossa definição, tanto pelas memórias que preserva como pelas que evoca e pelas que provoca. Esta foi uma experiência cuja memória irei preservar e certamente evocar frequentemente. Foi um privilégio ter a oportunidade de trabalhar com excelentes profissionais que de forma generosa se deslocaram a Coimbra e a quem agradeço.
Infelizmente o meio vive uma concentração de investimento e produção em Lisboa que é sítio onde nunca viverei. Nunca! Em Coimbra acontece pouco, em Amarante nem vê-lo e as minhas últimas incursões ao Porto, sozinha, acabaram comigo perdida (obviamente o Google Maps não fez o que lhe competia) ainda assim espero que apareçam outras oportunidades. Se não aparecerem que se lixe. Foi um prazer!



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Uma Peregrinação


É por isto que as novas edições dos livros da Agustina que anunciam prefácios de variadas figuras como se os mesmos fossem uma mais valia me irritam um bocadinho.
Por isto que a própria, Agustina, explica. 



Agustina Bessa-Luís in "Dicionário Imperfeito" .

sábado, 10 de novembro de 2018

Tédio

"...o momento presente faz-se notar pelo próprio nada de que é feito, pela sua irreal fisionomia, onde o tédio aflora em nódoa parda."

Teixeira de Pascoaes
in A Águia, nº 37, Jan. 1915