Doce da Teixeira

Na Páscoa, ao passar por uma daquelas doceiras de borda de estrada, pedi à minha mãe que me comprasse um Doce da Teixeira.
Estavam expostos na mesa juntamente com os Velhotes, o Pão-de-ló, as Cavacas, os Bolinhos de Amor... à sombra do enorme toldo. Foi-nos recomendado o de Amarante, autentico, fresquinho que o do Marco de Canaveses e o de Baião também são bons mas o de Amarante, o de Amarante é que era. Foi o de Amarante e era bom mas esperava mais. Esperava que aquele Doce trouxesse cheiros do passado e me despertasse memórias.
Depois da Páscoa, aproveitando as confusões editoriais que rodearam os livros da Agustina Bessa-Luís comprei alguns que ainda não tinha com a chancela da Guimarães Editores. Nunca tinha lido o 'Longos Dias têm Cem Anos', tratei de o ler.
Em Julho fui a Amarante por alturas do mimo (festival) e comprei um Doce da Teixeira só porque sim, sem expectativas, sem saber de onde vinha. Trouxe-me cheiros e memórias extraordinários que ainda hoje não consigo dizer se são meus ou da Agustina.


'Um cálido vento sopra sobre a mata que é abrigo de amores na noite da festa sacra.Muitas moças lá deixaram a virgindade, como as primícias da solidão. Era uma festa pagã, a da Senhora dos Remédios e muito célebre. Havia corridas de cavalos, e alguma amazona homada e fantástica, como o Douro teve sempre, corria no seu Isabel levantando rolos de poeira como se fosse Miguel Strogoff no caminho de Irkutsk. Maria Helena pintou uma vez Nijni-Novgorod, movida pela imaginação da grande feira Siberiana. Mas há Novgorod em todas as feiras, ou havia. Sobretudo aquela concorrência de ciganos, lavradores, mulheres garridas, tendas de mantas e roupas feitas, de pão-doce e refrescos de aguardente que já não há. Vendia-se limonada em tarros de cortiça cobertos de erva-cidreira. E o doce da Teixeira, feito com azeite, tinha um gosto antiquíssimo, de bodas de Viriato; assim como a falacha de castanha, cozida em cima de folhas de castanheiro.'



ps Quando era miúda passava uma série de desenhos animados sobre o Miguel Strogoff devo ter lanchado, algumas vezes, Doce da Teixeira a vê-la... Isto anda tudo ligado.






Comentários

  1. os cheiros, as memórias, são teus/tuas.
    :*

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  2. O doce da Teixeira traz-me a infância de volta. Nem compro para não me desiludir:)

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  3. o doce da texeira nunca devo ter provado do bom... mas ao ler a agustina fiquei com a falacha de castanha a nadar na boca :) como será?

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    1. Quase todos temos a madalena de Proust...

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    2. (precisamente isso que me tentava lembrar...em busca do tempo perdido...)

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    3. Cigano, não sei o que é a falacha mas não queiras experimentar este ano, este ano as castanhas não prestam.
      Quanto ao Doce da Teixeira pode ser que da próxima vez que tiveres oportunidade de o provar te lembres da Agustina e de mim e te saiba melhor.

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    4. APS, sim todos temos memórias partilhadas que são colectivas mas cada um evoca no seu particular.

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  4. Já pensou naquilo, Tétisq? Podíamos sempre fazer a boda com doces da Teixeira e Velhotes.

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