Adiáforos


Pensava que os pombos tinham um género de sonar, um instinto ou instrumento qualquer que os fazia desviarem-se de nós quando nos sentiam, mesmo que não nos vissem. Mas depois de ter sido atropelada por dois, esta semana, percebi que não.
O primeiro incidente teve lugar num largo. Eu atravessava o largo quando um pombo, assustado pelo entusiasmo de um pequenote de tenra idade ainda trôpego, levantou voo desgovernado e apesar de me ter desviado com uma rapidez de que me orgulho me sacudiu o cabelo com a asa.
O segundo aconteceu quando atravessava uma passadeira. De olhos postos no cronometro que me deixa sempre ansiosa com a sua contagem decrescente, como se não me bastasse ter que lidar com o medo de ser atropelada passei a ter que lidar com o medo de ser atropelada fora de tempo desde que inventaram aquilo, concentrada em cumprir com o tempo estipulado não me apercebi da sua chegada, estremeci quando me bateu com a ponta da asa na testa. Quase me saltou o coração pela boca e tive dificuldade em manter a postura perante os olhares e risos de gozo dos restantes transeuntes.
Os pombos já não são o que eram. Longe vão os tempos em que deles dependia a nossa sobrevivência. Porque participavam ativamente em episódios bélicos ou, simplesmente, porque dois pombos chegavam para alimentar uma família numerosa. Deixaram de ser confiáveis com as suas doenças e piolhos. Destroem-nos os monumentos e as pinturas dos carros com os seus cocós ácidos, mas mantinha uma certa esperança nas suas capacidades de navegação. 
Quando formos viver para Marte não os levamos.



Pombo americano na I Guerra Mundial

Comentários

  1. Um amigo meu levou com um presente na zona da Sé Velha que chegou à roupa interior.
    E cheirava mal!!!

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